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Verónica Giuliani – 10

Giulliani03A experiência mística é inefável. Por isso será muito pouco tudo o que se possa dizer de Santa Verónica Giuliani. É uma personalidade excepcional. Uma alma privilegiada e cem por cento extraordinária! Uma alma que amou a Cruz e a viveu como ninguém.
Verónica Giuliani é pouco conhecida. No entanto o seu diário íntimo é uma inesgotável mina de eterna riqueza; é um oceano de luz e da presença inefável do invisível. Nela atua e triunfa a graça de Deus.
Nasce em Mercatello (Urbino), em Dezembro de 1660, da nobre família dos Giuliani. O pai era mundano e jactancioso; a mãe, uma nobre dama de profunda piedade. Foi ela quem modelou o coração das filhas — que seriam sete, das quais duas mortas em tenra idade e quatro delas religiosas — no desprezo pelas vaidades mundanas e no amor à virtude e à prática religiosa. Era lhe particularmente cara a última a nascer: Úrsula no batismo; Verónica, na vida religiosa. Filhinha verdadeiramente singular e tesouro ímpar da família. Dela se contam maravilhas desde o berço. Aos cinco meses, enquanto descansa nos braços de sua feliz mãe, olha para uma imagem das três Pessoas Divinas, dependurado na parede; desce dos braços da mãe e, com passos firmes, vai ajoelhar-se em profunda adoração diante do quadro.
Apenas com um ano e meio, vai com uma criada comprar azeite, e repara que o vendeiro a tentava enganar.

Com admiração de todos, levanta a sua vozinha e exclama: «Sê justo, porque Deus vê».
Aos três anos, deixa os divertimentos próprios da sua idade, retira-se para junto de uma imagem da Virgem Maria com o Menino, e trata-a com infantil e comovente familiaridade. Com frequência, coloca sobre o pequeno altar, diante da imagem, o seu pão e a sua fruta, suplicando ao celeste Menino se digne tomá-los. Chega a esconder-se para ver se o Menino pega neles, mas, triste, repara que tudo ficara como dantes. Então diz: «Se não comes, eu também não comerei».
Outras vezes o Menino consola-a e ela sente-se felicíssima; mas mais feliz fica ainda quando a Virgem Maria lhe entrega para o estreitar ao seu coração.
Aos quatro anos espera com grande ansiedade pelo regresso da mãe e das irmãs da Missa e da sagrada Comunhão. Vai ao seu encontro, salta de alegria, e diz: «Que agradável perfume». E nesse dia permanece sempre ao lado delas.
Aos sete anos perde a mãe. O último adeus é comovente. As inconsoláveis filhas abraçam-na uma a uma e cada qual recebe um lugar nas chagas do Salvador. A Úrsula, sua predileta, toca-lhe a chaga do lado. A pequenina está inconsolável: como sempre, não quer ir deitar-se sem a ajuda da mamã. As irmãs tudo fazem para a sossegar, mas em vão. Beijos, carícias, promessas de bonbons e brinquedos, nada adianta. «Quero que seja a mamã a levar-me à cama». Anda desesperada e inconsolável. Finalmente uma delas teve a ideia de dar à sua irmãzinha uma linda imagem de Nossa Senhora para que a levasse consigo para a cama. Úrsula sempre desejou possuir aquela imagem. Então deixou de chorar e sossegou. Com a Virgem Maria sempre junto do coração, Úrsula deita-se e adormece com o sorriso dos anjos.
Invejável a sua posição social. Para além da riqueza e da opulência, em Mercatello, a sua cotação social sobe

quando o pai obtém o honorífico cargo de superintendente das finanças de Piacenza.
Úrsula era uma adolescente adornada de grande formosura, valorizada por excepcionais dotes intelectuais e beleza de alma. Tinha tudo o que poderia desejar uma jovem que se abre ao encanto da vida e ingressa na alta sociedade. Enfimr cortejada, admirada e procurada. Para seu pai ela era o lustre mais belo, a jóia quase idolatrada da família.
Contudo, outros ideais iluminam a jovem. E ela pretende realizá-los, custe o que custar. A oposição do pai torna-se cada vez mais obstinada. Mas ela permanece inabalável: sofre, reza, espera, certa de que vencerá. Jesus chama-a aos 17 anos. E ela, cortando com tudo e todos, corre… a fechar-se, vítima voluntária para sempre, no mosteiro das Capuchinhas de Cittá di Castelo, em Perúgia. Não se chamará mais Úrsula, mas Verónica: verdadeira imagem de Jesus Crucificado.
Na primeira noite que dorme sobre tábuas tem uma visão. Aparece-lhe uma grande multidão de anjos e de santos; em seguidasVeronicaGiuliani também a bem-aventurada Virgem Maria; finalmente, o próprio Jesus que a olha, a acaricia e a aponta àquela assembleia do Paraíso com estas palavras: «Eis a nossa menina». Depois, diz-lhe: «Que desejas»? E ela: «O Vosso amor». E sente-se como que trespassada. Ele insiste: «Que desejas»? — «Senhor, estas três graças: a perseverança na minha vocação, o cumprimento da Vossa vontade, o suplício da Cruz». Jesus contempla-a com profundo olhar e conclui: «Eu escolhi-te para a grande provação: por meu amor suportarás um longo martírio».
Noutra ocasião, tem idêntica visão e em circunstâncias iguais. Ouve perguntar: «Que desejas»? «Ó, meu Senhor, o Vosso amor, é isto o que eu quero». — «E porquê o meu amor»? — Para Vos amar e amar com o Vosso amor». Ela própria suplicava: «Almas! Meu Deus, dai-me almas». E uma voz respondia: «Conquista-as com o

sofrimento». Então abria os braços, mostrava os pés, as mãos, o coração: «Senhor, eis-me aqui! Sou a Vossa vítima: crucificai-me».
O anjo das trevas, submete-a a terríveis provações e arremete contra ela com furor e embuste. Disfarçado na figura de Verónica, aproxima-se de uma noviça e espalha uma calúnia contra a madre Mestra. A pobre noviça fica escandalizada e em consciência não pode calar. Por sua vez, a madre Mestra não sabe o que dizer e, porque lhe parece inacreditável, decide ter uma conversa a sério com a irmã Verónica, sem lhe revelar o motivo. «Porquê esta súbita mudança? E que mal fiz eu»?, pensa para si a Santa. Finalmente, a Mestra abre-se, chama a noviça que ouvira a calúnia, interroga-a sobre as circunstâncias, faz-lhe precisar a hora e o dia. Descobre então o engano diabólico, já que àquela mesma hora e naquele mesmo dia, a incriminada encontrava-se no quarto da madre Mestra para a habitual direcção espiritual.
Na festa de Todos os Santos de 1678 faz a sua profissão perpétua. A «vítima» encontra-se bem preparada para tão transcendente acontecimento: serena, disponível, espontânea. Daqui em diante repetem-se os episódios mais dilacerantes da Paixão do Salvador.
Em primeiro lugar, é o Getesémani; um cálice, trazido por mãos invisíveis, aparece a seus olhos. Jesus em pessoa lho oferece. Depois a Virgem Maria. Verónica aceita-o e, doravante, tudo quanto lhe vem aos lábios lhe saberá a fel.
A flagelação, a coroa de espinhos, o caminho do Calvário renovam-se milhentas vezes. Para Jesus, a cena culminante foi a crucifixão; para Verónica, a impressão dos estigmas e o trespassar do coração. É a Sexta-feira Santa de 1697: aparece-lhe o Crucificado e das Suas chagas saem cinco raios resplandecentes. Quatro levam, na extremidade, um cravo; o quinto, uma lança incandescente de ouro. Esta abre-lhe o coração; os cravos trespassam-lhe os pés

verogiue as mãos. Recuperados os sentidos, Verónica está de joelhos e com os braços abertos em cruz. Da chaga do coração mana sangue aos montes; sobre os pés e as mãos trespassados fica, em cada um, como que uma carne calosa, com a forma de cabeça de cravo. Ao mínimo contacto sentirá espasmos atrozes.
Que abundantes foram os frutos da sua paixão! Quantas almas arrancadas ao inferno pela sua penitência! Verónica é a grande apaixonada da Cruz: a grande expiadora pelos pecados do mundo; a grande libertadora das almas do Purgatório.
Como penetrar na sua alma tão misteriosamente privilegiada? E porque falar ainda das suas mortificações?
Uma pergunta é necessário fazer: que ideia fazia de si mesma a Santa? Enquanto os confessores afirmavam não ter matéria suficiente de absolvição, ela publicamente e em confissão tinha-se na conta da maior pecadora do mundo e o escândalo do mosteiro.
E que dizer da doçura e delicadeza da sua caridade? Como Mestra de noviças, tratava-as e educava-as com carinho maternal, considerava-as como suas filhas e via nelas as felizes futuras esposas de Cristo.
‘Como lhe era caro ao coração o mais árduo e meritório dos votos! Assim o declarava ela na assinatura das suas cartas: «Irmã Verónica, filha da obediência».
Era uma verdadeira filha de Santa Clara! Para as Clarissas, a Regra resumia-se na pobreza, filha do amor e mãe da virtude. Pobreza rainha! No quarto, um livro e a Regra; o hábito de abadessa, tão remendado, que a madre Vigaria (Irmã Florida) contou 98 remendos.
As suas devoções prediletas: Jesus Menino, a Eucaristia, a Cruz, Nossa Senhora. ( Era uma alma toda franciscana! Na festa do santo Natal, junto do Presépio, não podia conter os sentimentos do seu coração: Aquele Menino era o seu Deus que, por seu amor tomara a fragilidade da nossa carne! Naquele

dia as Capuchinhas costumavam levar em procissão, pelos claustros e dormitórios, a imagem do Menino Deus… Que ventura levá-la nessa noite santa! A Irmã Verónica tomava-a nos braços e levava-a como se estivesse viva; e com grande admiração das Irmãs, estreitava-a ao colo e cobria-a de carícias.
Um exemplo do seu amor à Eucaristia: ela tinha pas¬sado em claro boa parte da noite. Encontra-se totalmente esgotada. Mas o veronicaseu coração quer Jesus. Finalmente chega a ordem de sair para receber a sagrada Comunhão… Pressurosa, corre para o comungatório, antes de todas, inclusive da Abadessa. O sacerdote ainda não acabara de dizer pela terceira vez: «Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo» e a sagrada Hóstia poisa-se nos lábios da Santa.
Verónica e a Cruz! Será chamada a «Passiflora de Metauro». Já vimos um pouco o seu caminho doloroso, trilhado desde criança. Neste caminho chegará ao «non plus ultra» da imitação e da fidelidade. Enamorada pela Cruz, deixa-nos estupefactos: «O padecer não é para mim padecer; o meu sofrimento é ser compadecida».
Um dia ouve gritar um morcego girando sobre a janela do mosteiro: «Porque não há ninguém que queira comprar sofrimentos? Se houvesse quem os vendesse, eu os compraria todos»!
No refeitório, ao escutar o relato da Paixão, não faz mais que chorar. Chora também quando faz a Via-Sacra; chora durante os trabalhos de cada dia, porque o seu pen¬samento transporta-a ao Calvário.
Em Jesus Cristo, a Sua santa humanidade resume-se e recapitula-se no Coração: símbolo e órgão do Seu amor ao Pai e aos homens…
Em muitas aparições, Cristo mostrar-lhe-á o Seu Coração. Ele lho mostrará não só para recordar o Seu amor pelos homens, não só porque ela chora sobre a Sua ferida aberta, mas também para que possa entrar como que numa nova mansão, para ali realizar o mistério da inefável união.

— «De quem é o teu coração, Verónica»?
— «É Vosso, Senhor».
— «De quem é o teu coração»?, interroga-a segunda e terceira vez.
— «É Vosso, Senhor».
— «Se é Meu, Eu vou tomá-lo».
O coração de Verónica encontrar-se-á no Coração de Jesus para poder viver apenas a Sua vida divina.
Foi-lhe concedido ainda um privilégio mais sublime: Jesus tomará o seu próprio Coração e o meterá no peito de Verónica, dizendo-lhe: «Ama e vive com o Meu Coração».
Do Sagrado Coração, ela volta-se para Maria e participará das suas dores como participou das dores de Cristo. Vive de Maria e de Jesus; vive de Jesus, por meio de Maria, e dela receberá especiais graças e privilégios.
No dia 21 de Novembro de 1708, festa da Apresentação, a Irmã Verónica, então Mestra de noviças, entrega o Noviciado nas mãos de Nossa Senhora das Dores e faz-se também noviça. A fórmula da sua consagração é colocada pelo seu confessor sobre o altar durante a Missa. Doravante, nada terá consigo de quanto lhe é atribuído como Abadessa: Regra, selo…, tudo é oferecido primeiro a Jesus e depois à Virgem Maria.
No Mosteiro, a imagem de Nossa Senhora tinha um lugar de honra. Te-lo-á sempre mais, e será Ela a ver¬dadeira Abadessa. «Deixai-me a Mim as verdadeiras preocupações do Superiorado»! E, na verdade, Maria estava presente em tudo. A cada passo adormecia Verónica com o sono dos êxtases, para Ela própria a substituir na conferência às Irmãs. Por último, revelar-lhe-á a hora da chegada à casa do Esposo. Verónica fora-lhe sempre fiel, apesar dos contínuos e quotidianos despeitos de satanás; fora-lhe totalmente fiel na aceitação de todas as provações. As almas débeis fraquejariam perante tantos sofrimentos. Tantas e tais são as aflições e os martírios por que passa a sua vida, que Verónica será tida como visionária e desequilibrada e, como tal, segregada da Comunidade e punida até pelos superiores eclesiásticos.
«Jam hiems transiU!» Finalmente tinha cumprido a sua missão. «Jesus, vem»!
Durante 33 dias, após 59 anos de vida religiosa e 33 de Superiorado, um somatório de implacáveis e dolorosas doenças acabou de a purificar.
Num momento, enquanto lhe rezam as orações dos agonizantes, ela abre os olhos extasiados e olha à sua volta: perto, muito perto, vê Jesus, Nossa Senhora, .São José, São Francisco, Santa Clara. É a sua hora. Nossa Senhora inclina-se, sorri-lhe e faz-lhe sinal para partir… Mas Verónica não pode decidir-se. Olha para ver se da outra parte do seu pobre leito está o confessor. Obediente até ao extremo, espera do confessor a ordem de partida. Ele compreende, recolhe-se e, com voz comovida, fala-lhe: «Da parte de Deus, eu, Seu ministro, se tal é a Sua vontade, ordeno-te que partas deste mundo». Inundada de felicidade, Verónica olha, lentamente, uma por uma, as suas diletas filhas que a rodeiam; depois inclina a cabeça e entrega a sua vida a Deus. Era Sexta-feira, 9 de Julho de 1727.
A Sé Apostólica rapidamente reconheceu as suas virtudes heróicas. Será beatificada por Pio VII, e Sua Santidade Gregório XVI a coroará com a auréola dos Santos a 26 de Maio de 1839.
Glória a Santa Verónica, encanto da Santa Mãe Igreja! A sua vida é a condenação de todas as tibiezas, é um convite aos altos voos da contemplação!…vero


Liturgia Diária

Evangelho: 5ª-feira da 28ª Semana do Tempo Comum

Santo: São Paulo da Cruz

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