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São Lourenço
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São Serafim de Montegranaro – 12

São Serafim de Montegranaro 

 É particularmente atrativa a vida simples de São Sera­fim: sedutora em todos os aspectos e em todas as dimensões.

São Serafim de Montegranaro, Capuchinho (2)Neste doce e encantador Irmão refulge, de forma bri­lhante, o genuíno espírito franciscano: vida ilibada, paci­ência inalterável, chama ardente de piedade e de amor.

Viveu desde a infância uma vida muito sacrificada: para matar a fome, vai guardar rebanhos; depois faz-se servente de pedreiro. Doem-lhe as costas, por ter de car­regar todo o dia tijolos e argamassa, mas sorri sempre. O cansaço é enorme, mas o seu sorriso é permanente. Mantem-se fiel a uma vida espiritual intensa, e, muitas vezes durante a semana, jejua a pão e água. Os compa­nheiros de trabalho, como acontece neste triste mundo, em vez de se maravilharem com o seu exemplo, cobrem-no de escárneo e fazem-lhe passar horas angustiantes.

Até um seu irmão, que tinha o lindo nome de Silên­cio, o agride e maltrata. Ele cala, tudo suporta, resignado e com os olhos no Céu.

Já então era um santo, e Deus o irá confirmar com um prodígio. Durante uma peregrinação a Loreto, a que acorriam também muitos paroquianos de Montegranaro, a estrada que atravessa o rio Potenza, muito caudaloso devi­do ao degelo das neves, encontra-se cortada. Os peregri­nos são obrigados a fazer um grande desvio. Mas o nosso jovem, depois de refletir um pouco, descalça-se e mete-se a caminho. Ouvem-se gritos de horror e de repulsa de todos os presentes. Ele, porém, não se importa nem da torrente caudalosa, nem das vaias. Não volta para trás. Alcança a outra margem, enfrenta a subida escarpada da montanha, prosseguindo a caminhada com os olhos e o coração postos na pequenina Casa de Maria.

Que será deste jovem? Quais os desígnios de Deus acerca desta alma privilegiada? Quantos anos, quantos meses, quantos dias ficará ainda no mundo?

Um dia, depois de muito ter reflectido e pensado, vai bater a um convento de Capuchinhos. Pergunta pelo Supe­rior e manifesta-lhe, com toda a sinceridade, o que era e o que desejava: «Nada possuo, apenas trago comigo o Crucifixo e o Rosário, mas com eles, se Deus me aju­dar, serei útil aos Irmãos e me farei santo». Foi rece­bido, provado e mandado para o Noviciado, e aqui ficou. Entendia pouco de trabalhos manuais, e isso fê-lo sofrer muito: quantas palavras duras, repreensões e impropérios! E quantas tentações, também! Mas entendia muito de sacri­fício, de oração e de paciência; desta maneira triunfou de todas as contrariedades.

Todas os dias recitava um Terço por aqueles que o mortificavam com palavras e atos. Uma vez, em que o Superior lhe deu uma penitência mais gravosa do que o costume, terminada a refeição e dada a bênção, dirigiu-se a toda a pressa à igreja e prostrou-se diante do Santís­simo Sacramento para rezar o Terço. Do sacrário fez-se ouvir uma voz: «É-me muito grata esta tua oração»!

Transparecia no seu rosto a graça que o iluminava por dentro; vê-lo era como contemplar uma aparição do para­íso. Todos os que se encontravam com ele — era porteiro — ficavam edificados pela sua modéstia, pelo seu com­portamento, pelo seu angélico e seráfico aspecto.

E como sabia cortar rapidamente com as conversas quando estas não eram muito edificantes! Servia-se de pequeninas frases ou palavras, que tinham o condão de desviar a conversa, sem ofender ninguém: «Bagatelas!Bagatelas! — dizia — Deus quer-nos bem, procuremos também nós querer-lhe bem».

Com ele, a porta do convento tornou-se um autêntico banco de beneficência, um laboratório de prodígios, uma piscina probática e uma cátedra de apostolado. Quantos pobres! Quantos atribulados! Quantos necessitados de uma palavra amiga e de um bom conselho! E Frei Serafim a todos escutava, estava com todos e a todos se dava, a qual­quer hora e a qualquer momento.

Era um santo, tudo bem; mas não seria um pouco exagerada aquela sua caridade? Também os Irmãos do con­vento eram pobres! E o amanhã? O Irmão hortelão foi queixar-se ao Superior de que era preciso avisar o cari­tativo porteiro para ser um pouco mais discreto: «De que valia trabalhar tanto na horta para ver depois os frutos do seu trabalho desperdiçados daquela maneira»?

Frei Serafim ouve humildemente todas essas reprimendas, e responde assim: «Estou pronto a obedecer, padre Superior, mas poderá recusar-se o pão aos pobres? Permita-me continuar a proceder como dantes; tomo sobre mim a responsabilidade dos prejuízos que o convento tiver. Alguma vez se viu a Providência fechar as mãos, porque nós as abrimos»?

Nada lhe foi proibido, e ele continuou a fazer como costumava. Porém, o Superior foi dar uma volta pela hor­ta para se inteirar dos danos causados… Grata surpresa do bem-fazer! Havia mais legumes do que antes, e as árvo­res nunca se tinham visto tão carregadas de frutos.

E no seu ofício de esmoleiro? Penso que o seu exem­plo é ainda mais edificante. Mesmo quando partia para longe, nada levava do convento, dizendo: «Um verdadei­ro filho do Patriarca dos pobres deve depender em tudo da Divina Providência».

Era sempre reservado e discreto. Um dia, enquanto com o seu companheiro andava por Ascoli à procura de azeite, ao confrade que se mostrava avidamente solícito em não deixar nenhuma casa para trás, observou-lhe: «O demasiado afã das coisas temporais é uma ofensa grave à altíssima pobreza que professamos. Mesmo que um ben­feitor ficasse sem a nossa visita, ficam ainda muitos pobres na cidade necessitados de esmola».

Esmoleiro exemplar! Esmoleiro admirável! O Irmão encarregado do refeitório quantas coisas não nos poderia dizer sobre o alforge de Frei Serafim!

É também um esmoleiro penitente e mortificado! Para si nada queria. As suas delícias eram a abstinência e as privações! Apenas uma vez, em Ófida, atormentado pela sede, pede a um conhecido lhe dê um remédio para a extin­guir. «Sugiro-vos um, que é radical — diz-lhe o amigo na brincadeira — tomai uma anchova e mastigai-a sem pão». Numa quente manhã, o santo fez a prova. Momen­tos depois tinha a sensação de ter fogo na garganta, fogo no paladar, fogo na língua. Aquela lição foi-lhe preciosa. Quando os sentidos recalcitravam, dizia a si mesmo: «Adiante! Caminhemos! Que delicado estás! Ainda pen­sas em remédios e alívios? Não te bastou a anchova»?

Esmoleiro mortificado até na rigorosa guarda dos olhos! Ou porque, desde criança, levasse uma forma de vida aus­tera, ou porque, desde então, tivesse fugido das ocasiões perigosas, ou porque se habituara a um estilo de vida sacri­ficada, não consta que fosse incomodado por tentações. Todavia evitava conversar com mulheres, e, quando era necessário, fazia-o sempre com poucas palavras e com os olhos fixos no chão ou no céu: um verdadeiro serafim!

Dormia pouco, e esse pouco, no chão, ou sobre nuas tábuas, ou numa pobre cama, com o capuz na cabeça e os pés cobertos com o hábito, ou ainda com um trapo de lã, mesmo em pleno Agosto. Uma noite acordou, remexeu-se na cama e reparou que os pés estavam casual­mente descobertos. Ouviu um padre a repreendê-lo: «Ó estouvadinho! Estouvadinho! Fica quieto». — «Não, não! Para condescender convosco não quero perder a bênção de Maria»!

E que humildade! Era serviçal para com todos, e julgava-se indigno do mais pequeno serviço. Preparava-se para as humilhações e aceitava-as como orvalho do céu.

São Serafim de Montegranaro, Irmão Capuchinho (indo para a glória do Céu)Um Irmão pregador quer pô-lo à prova diante do médi­co, que tinha vindo ao convento com algumas flores. Tira um belo cravo e oferece-o ao Santo: «Es capaz de ir pela cidade com isto nas orelhas»? «E porque não?» — res­ponde Frei Serafim. «Não ê, porventura, uma flor que representa ao vivo a Paixão? O vermelho é símbolo do preciosíssimo Sangue; o branco, misturado com o ver­melho recorda a imaculada paciência de Jesus; o seu agradável perfume faz-nos saborear a suavíssima fragância que sai de Deus Pai pelo sacrifício do Calvário…» O pre­gador, não se contendo mais, responde: «Imbecil, como ousas dar à língua desse modo na presença do nosso ami­go médico? Bem sabemos que és um poço de soberba, de hipocrisia, e que fazes semelhantes prédicas ao povo para lhe fazer crer o que não és». Frei Serafim ouve, calado e compungido, olhos baixos, mãos cruzadas no pei­to, sem qualquer .perturbação ou rubor. Espera apenas que o padre termine para se ajoelhar, agradecer e se reco­mendar à suas orações.

Uma outra vez, sendo porteiro, enquanto se entreti­nha a orar numa capelinha perto da porta, so padre Supe­rior passa ao lado juntamente com um religioso forasteiro. Inesperadamente irrompe por ali dentro e invetiva-o: «Que fazes aqui, hipócrita? É este o lugar para a oração? Nos­so Senhor manda-nos rezar, sim, mas em segredo, e que ninguém nos veja; tu, pelo contrário, fazes isso em públi­co. Já se sabe porquê: é para enganares a quem te vê, para te fazeres passar por santo. Saí daqui, trapaceiro, e acaba com as tuas hipocrisias». O Servo de Deus fica ajoelhado até que o Superior acabe, depois beija o chão e retira-se feliz. Tem o sabor das «Fbrínhas» o seguinte episódio. Tan­to dentro como fora do convento, Frei Serafim costumava usar um hábito curto, recamado de centenas de remendos: cada remendo era uma bênção e uma consolação. Mas um dia o Superior obrigou-o a sair para esmolar com um hábi­to novo e uma capa nova. Para o convencer, diz-lhe cla­ramente que nunca mais os usaria, mas que ao menos, uma vez, sentisse o aborrecimento ou a alegria de apa­recer em público todo vestido de novo. A obediência é sagrada, e Frei Serafim candidamente obedece: primeiro põe o hábito, depois a capa, em seguida pede a bênção, leva na mão o rosário, e ei-lo que sai. «Será ele ou não será ele»? Toda a gente de Ascoli conhecia Frei Serafim, e todos eram seus benfeitores. Olham-no e voltam a olhar! Era sua a maneira de andar, se bem que menos desen­volto; era seu o aspecto de santo e o seu incomparável sorriso; era sua a venerada barba e sua a voz… «Mas como é que vai tão ataviado, tão bem vestido? Deveria ser alguma herança…» Todos se comprimiam à sua vol­ta, e todos lhe davam os parabéns «sine fine dicentes». O servo de Deus ouve e sorri, saúda e sorri, e, com aque­la sua graça encantadora, responde»: «Que pensais, meus amigos? Que não devia deixar os meus andrajos? Quero fazer também a minha apresentação entre os homens de bem. Oh!, como está vossa excelência? Eu sou o Frei Serafim, o esmoleiro dos Capuchinhos».

E que dizer do seu terníssimo amor a Nossa Senho­ra? Sabia que só amavam verdadeiramente Nossa Senhora aqueles que evitavam o pecado; era o que ele procurava e recomendava a todos.

Um dia, no convento de Ascoli, vieram procurá-lo dois jovens, bem vestidos, alegres e gastadores, mas ambos com um pecado grave, que só Deus e eles conheciam; mas Frei Serafim também conhecia. Acolhe-os com amabilidade, sauda-os, pega-lhes por um braço e aperta-o com força. Eles soltam um grito de dor. Então o santo diz-lhes: «Se vos dói tanto sentir a vossa carne beliscada por um momento, que espasmos, que dores não deveríeis sentir neste instante se o Senhor Deus, depois do pecado por vós cometido, vos tivesse condenado, ao inferno, como bem o podia fazer e como vós o merecíeis». Ficaram ambos brancos como a cal. Arrependeram-se, pediram-lhe que rezasse por eles e prometeram confessar, o mais rapi­damente possível, os seus pecados e mudar de vida.

Mas, como amava Frei Serafim Nossa Senhora? De todos os modos e maneiras, mas sobretudo com todo o seu carinho. Para a recordar a todo momento e tê-la sem­pre presente, trazia ao pescoço uma medalha especial: uma «peça», mas de louça, com a imagem da Imaculada Con­ceição. Nesse caco anguloso e rude, encontrado no cami­nho, com imensa delicadeza conseguiu fazer um pequenino furo e não mais o deixou.

No refeitório tinha uma tijela com uma grosseira figu­ra da Virgem no fundo. De cada vez que a levava à boca para beber, contemplava a Virgem Mãe, e fazia-o com tal simplicidade e tal amor, que parecia entrar em êxtase.

Mas, onde dava largas ao seu coração era na igreja, todas as noites, diante do altar da Senhora das Dores. Pri­meiro ajoelhava-se e ficava longo tempo absorto em oração. Depois levantava-se e, com os olhos fixos na imagem, ento­ava o «Stabat Mater» (julgava estar só, mas num ângulo da igreja havia um padre que observava tudo). Quando entoava a estrofe: «Do teu Filho chagado… divide as penas comigo», lançava gritos tão pungentes que partiam o coração.

Juntamente com a devoção a Nossa Senhora, tinha tam­bém uma terníssima devoção à Eucaristia. Desejaria fazer parte da família do convento de Loreto, para poder ajudar a um maior número de Missas. No momento da Comu­nhão parecia um verdadeiro serafim; e, regressado ao lugar, ficava imóvel, arrabatado, com o rosto resplandecente de luz celestial. Neste sentido é enternecedor e comovente o que lhe aconteceu em Ascoli. Certa manhã, assistia ele, no coro, à Missa, celebrada por um sacerdote para alguns devotos, num altar lateral. Depois da resposta do ajudante: «Mas livra-nos do mal», Frei Serafim levanta-se do seu lugar e chega a tempo de dizer a «Confissão». O sacerdote, que não havia consagrado partículas, tenta dizer-lhe: «Não há partículas para comungar; espera por outra Missa». — «Padre, procurai no corporal, está lá uma». — «Não está, já te disse: é impossível». — «Padre, há aí uma san­ta partícula; está diante de vós. Tomai-a e dai-me a comu­nhão». Perante tamanha insistência, o celebrante procura melhor; e estava lá uma partícula. Que anjo a teria trazido?

São Serafim de Montegranaro, Irmão CapuchinhoMuitas outras coisas poderíamos dizer da sua vida. E todas elas lindas e admiráveis! Mas o seu coração, a sua alma e as suas virtudes, tudo o que já dissemos dele, é suficiente para a nossa fraterna admiração, deixam-nos um fraterno conforto, movem-nos e estimulam-nos a segui–lo.

Aos 64 anos partiu para o céu, a fim de receber a sua recompensa.

Os prodígios multiplicaram-se sobre o seu sepulcro.

Foi declarado Beato em 1729.

Clemente XIII reconheceu, solenemente, a heroicida­de das suas virtudes e nimbou-o com a auréola dos San­tos a 16 de Julho de 1767.


Liturgia Diária

Evangelho: 5ª-feira da 28ª Semana do Tempo Comum

Santo: São Paulo da Cruz

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