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Marcos de Aviano – 13

marcosdeaviano2Viena – O cerne da História, numa perspectiva teológico-católica, consiste no relato dos episódios da luta entre o Bem e  o Mal, a verdade e o erro. É o que ensina o grande São Luiz Maria Grignion de Montfort, em seu “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem”, ao comentar a inimizade que Deus colocou entre a serpente (na qual se escondia o demônio) e a mulher (Nossa Senhora).

Normalmente Deus intervém nessa luta, respeitando sempre o livre arbítrio dos homens, através das chamadas causas segundas, isto é, atuando através de causas naturais, ou através da graça no interior das almas. Tais circunstâncias tornam as intervenções divinas nem sempre perceptíveis pela grande maioria das pessoas.

Há entretanto dois tipos de intervenção de Deus que são de mais fácil percepção: uma, mediante grandes milagres; e outra, através da atuação de alguém suscitado pela Providência Divina e de grande virtude, que, atuando profundamente sobre a sociedade, muda os rumos da História. Por vezes tais pessoas são canonizadas pela Igreja, mas não necessariamente.

Decisivas intervenções divinas  na História austríaca

A história da Áustria apresenta episódios bem característicos dessas duas formas de intervenção: por exemplo a  atuação milagrosa do Padre Marco d’Aviano na defesa de Viena cercada pelos turcos em 1683; e a transformação da vida católica em toda a sociedade austríaca, por influência de São Clemente Maria Hofbauer, no início do século XIX.

A atuação de São Clemente Maria Hofbauer fica para ser narrada em outra ocasião. No presente artigo ocupar-nos-emos da vida do Padre Marco d’Aviano, cujo tricentenário da morte foi comemorado no último dia 13 de agosto com grande solenidade na capital austríaca.

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O Pe. Marco d’Aviano  nasceu em 17 de novembro de 1631 na cidade de Aviano (Friulia – Itália). Segundo filho de uma abastada e piedosa família, com numerosa prole (10 filhos), foi batizado com o nome de Carlo Domenico em honra de São Carlos Borromeu, por cuja intercessão sua cidade natal tinha sido libertada de devastadora peste naquele mesmo ano.

Em 1645, com apenas 14 anos, Carlo Domenico ficou muito impressionado com os relatos da defesa da ilha de Creta pelas tropas da República de Veneza contra as forças turcas. Decidiu então ajudar os cristãos perseguidos pelos turcos muçulmanos no Oriente.  Juntou o pouco dinheiro que acumulara como estudante e, sem avisar ninguém, partiu de navio para Capo d’Istria. Nessa cidade, por falta de meios, chegou a passar fome, vendo-se compelido a pedir abrigo em um convento de capuchinhos. Lá recebeu o chamado de Deus para entrar na Ordem dos capuchinhos, onde, além de servir a Deus mais diretamente, teve conhecimento de que também poderia ser nomeado capelão das tropas que lutavam contra os maometanos.

Exímio pregador para a santificação das almas
hist03Depois de ler o opúsculo “A gravidade do Pecado”, do Padre Marco, o Imperador Leopoldo I escreveu nas próprias páginas do livro: “Eu não sei se haverá alguém que, depois de tê-lo lido, ainda ouse pecar. Parece ter sido escrito para mim, pobre pecador”.

Em 21 de novembro de 1648, entrou para a mencionada Ordem tomando o nome de Irmão Marco. Um ano depois, tendo passado por muitas provações devido à sua fraca saúde, professou, fazendo os votos perpétuos.

Somente a um terço dos irmãos era facultado estudar filosofia e teologia para se tornarem pregadores. O Padre Marco, devido à sua timidez, não conseguiu passar nos exames. Contudo, o excelente caráter do noviço chamou a atenção do Geral da Ordem, Padre Fortunato de Cadore, o qual, por ocasião de uma visita ao convento, autorizou-o a continuar os estudos. Assim, o Irmão Marco foi ordenado em 18 de setembro de 1655 e, em setembro de 1664, aos 33 anos, recebeu a láurea de pregador.

Dom dos milagres e bênçãos miraculosas

Em 8 de setembro de 1676, festa da Natividade de Nossa Senhora, operou o Padre Marco seu primeiro milagre. Após uma pregação muito abençoada no Convento de São Prosdocimo, das Damas Nobres de Pádua, exortou os doentes a que se preparassem espiritualmente para a bênção, por meio de propósitos de progresso espiritual. Foi-lhe então apresentada a Irmã Vincenza Francesconi, que há mais de 13 anos jazia paralisada em uma cama. Rezou com ela a Ladainha Lauretana e, depois, deu-lhe a bênção. Sentindo a ação da graça, a doente exclamou: “Estou curada”. O capuchinho ordenou então que ela subisse e descesse uma escada próxima, o que a miraculada fez sem esforço.

A partir desse momento multiplicaram-se sem cessar os milagres. O afluxo de povo era tão grande ao convento do Padre Marco, que seus confrades se queixavam da impossibilidade de observar a vida conventual. O Convento e a igreja pareciam ter-se transformado em uma praça de mercado. Não poucos saíam curados, outros adquiriam mais confiança na Providência Divina e saíam reconfortados.

Em 20 de outubro de 1676 o Padre Marco foi chamado a Veneza, tendo lá alcançado a graça do arrependimento para dois membros da nobreza da cidade (Frederico Cornoro, que sofria há muitos anos de gota, e Laura Gritti, consumida por um câncer no peito), tendo ambos ficado sãos também de corpo. Curou ainda muitas pessoas do povo. Para onde se movesse, acompanhava-o grande multidão.

O dom dos milagres, entretanto, representava para o Padre Marco grande sofrimento, pois via que muitos o procuravam só para se verem livres dos males do corpo. E o que ele desejava era conduzir essas almas a Deus pelas vias da santidade. Resolveu, então, somente dar a bênção aos doentes que antes se confessassem e recebessem a Sagrada Comunhão. A bênção dos enfermos não deveria se transformar em um ato como quê mágico, administrado a pessoas de pouca fé. Elaborou então um ritual da bênção aos doentes, no qual o ponto básico era a reforma de vida, levando o enfermo a uma reconciliação com Deus ou a uma vida mais perfeita.

Em 1680 foi publicado em Bozzanno um livreto contendo reflexões extraídas dos Sermões do Padre Marco, intitulado A gravidade do Pecado.  Esse opúsculo veio ter às mãos do Imperador Leopoldo I, que após lê-lo, escreveu em suas páginas: “Eu não sei se haverá alguém que, depois de tê-lo lido, ainda ouse pecar. Parece ter sido escrito para mim, pobre pecador”.

marcosdeaviano1Padre Marco chegou a ser conduzido perante o Tribunal da Inquisição, que o proibiu de dar a bênção aos doentes. Tal proibição, contudo,  teve pouca duração, pois inúmeros exames médicos das curas provavam a autenticidade e duração dos milagres. Continuou ele, portanto, a percorrer em todas as direções o norte da Itália.

Logo a notícia desses milagres espalhou-se pela Europa. Os convites dirigidos ao Padre Marco para visitar esta ou aquela diocese eram tantos, que tornou-se impossível atendê-los todos. Passou, então, a combinar por carta o dia e a hora em que daria a bênção para tal pessoa ou cidade. Esse método, porém, revelou-se também insuficiente. Foi aí elaborado um calendário para o ano inteiro, com data e hora marcada para a bênção ser ministrada aos doentes. Nessas condições muitos milagres se operavam à distância. A bênção seria concedida sempre que os doentes – Bispos, nobres, o próprio Imperador e muitos simples fiéis – a implorassem e se preparassem, confessando-se e comungando previamente.

Missões públicas em diversos países da Europa

Inúmeras eram as súplicas dirigidas ao Papa e ao Geral dos capuchinhos para que o Padre Marco transpusesse os Alpes e fosse à Áustria. Com muita dificuldade, em maio de 1680, obteve-o o Duque Carlos de Lorena. Este, após ter sido despojado de suas terras por Luiz XIV, foi prestar serviço ao Imperador austríaco como intendente no Tirol, e três anos mais tarde tomaria parte destacada na defesa de Viena contra os turcos. O Duque havia sido anteriormente curado pelo capuchinho de fortes dores nos pés.

Na Diocese de Munique, após a visita do Padre Marco, uma comissão preparou um livreto com base no relato de testemunhas, que narraram 391 milagres operados.

Em novembro de 1680, o Santo visitou Salzburg e depois Linz, onde pela primeira vez encontrou-se pessoalmente com o Imperador Leopoldo I, com quem já mantinha correspondência. A Imperatriz ajoelhou-se diante dele e implorou-lhe a bênção.

Padre Marco corajosamente censurou as indecisões do Imperador nos negócios de Estado e muitas injustiças cometidas por funcionários e juízes. O Imperador pediu-lhe que repetisse tais admoestações em suas homilias na igreja dos capuchinhos. Foi então que proferiu, de maneira profética, a ameaça. “Convertei-vos, senão virá sobre Viena um castigo mais terrível do que a peste de 1678-80”.

 De volta à Itália, em 1681, pregou a Quaresma em Veneza, que se transformou numa Nínive convertida.

Depois da Páscoa, por ordem do Papa deveria o Padre Marco ir pregar nos Países Baixos, passando pela França. À medida que a viagem prosseguia ia aumentando o número de fiéis que acorriam às suas pregações. Em Lion reuniu-se uma multidão de 200 mil fiéis. Luiz XIV, que fora da França apoiava os protestantes e os turcos, a fim de enfraquecer o poderio da Casa d’Áustria, temendo admoestações à sua pessoa e críticas do capuchinho à política do Reino francês, mandou prendê-lo e levá-lo oculto em uma carreta de feno até a fronteira dos Países Baixos.

Na Bélgica, na Holanda e depois na Alemanha, novamente continuaram os sermões a produzir os mesmos salutares efeitos.

Advertência profética diante da ameaça turca
hist02O Papa Inocêncio XI apoiou incansavelmente o Imperador Leopoldo I durante a ameaça da conquista de Viena, capital do Império, por parte do poderio turco

Em meados de 1682, voltou o Padre Marco a encontrar-se com o Imperador nas proximidades de Viena. No dia 2 de julho, ao despedir-se da capital do Império, novamente advertiu a cidade: “Ai de ti, Viena, se não reformares teus costumes. Um terrível castigo em breve abater-se-á sobre ti.” Muito significativamente, não foram registrados milagres nessa ocasião. E então voltou para seu convento na Itália.

Todos os fatos até aqui mencionados conferiam ao Santo capuchinho  enorme autoridade moral para o papel que ele iria desempenhar na inspiração e organização das tropas católicas que defenderiam a capital austríaca.

Na correspondência estabelecida entre o imperador e o capuchinho, nota-se uma crescente preocupação de Leopoldo I com o aumento do poderio turco sob o governo do Grão-vizir Kara Mustafá.

A situação aumentava de gravidade devido à atitude de Luiz XIV. Este apoiava os revoltosos húngaros, os quais pediam o auxílio dos turcos. Além de assegurar aos turcos que nada empreenderia em defesa do Império austríaco, o monarca francês prometia  até atacar o Império na região do Reno, a fim de obrigar o Imperador a dividir suas forças. Tentou também indispor a Polônia com o governo imperial.

Leopoldo I contava somente com  um poderoso e incansável defensor: o Papa Inocêncio XI. Este tentou, com pouco êxito, coligar as nações católicas para a defesa do Sacro Império. Apenas  a Polônia, a Baviera, a Saxônia e a Renânia prometeram ajuda.

Já no início de 1683, o exército turco havia tomado Belgrado e  aproximava-se de Viena com mais de 250 mil homens.

O cerco de Viena e a atuação política do admirável capuchinho
hist04João Sobieski, Rei da Polônia e heróico comandante dos exércitos católicos, que salvou Viena do ataque turco no século XVII

Na noite do dia 7 de julho, o Imperador foi obrigado a abandonar a cidade, para congregar as tropas aliadas mais a oeste. No dia 17, os turcos fecharam o cerco em torno da capital. Setenta mil pessoas permaneciam em Viena, entre as quais 10 mil soldados. A defesa foi organizada com a ajuda das Corporações de Ofício e dos estudantes. O famoso historiador von Pastor observa que “assim começava o mais preocupante de todos os cercos da História”. Se Viena fosse conquistada, toda a Europa ficaria ameaçada de cair sob o domínio muçulmano.

Mediante freqüentes cartas, o Imperador ia colocando o Padre Marco a par dos acontecimentos. De todos os lados recebia o frade apelos para que viesse ao teatro da batalha. O Conde Felipe Guilherme, do Palatinado, escreveu-lhe: “Vossa vinda é absolutamente indispensável. Sem vossa presença estamos perdidos”.

 

Por sua vez, o Imperador hesitava em solicitar a vinda do Padre Marco, pois este estivera  muito doente no início daquele ano. Mas, com o agravamento da situação, apelou ao Papa e conseguiu que este o enviasse o mais rapidamente possível.

No início de setembro, chegou o Santo capuchinho à cidade de Linz.

Cabendo naturalmente a Leopoldo I o comando geral das tropas, mas não tendo qualidades para tal, a primeira tarefa do Padre Marco foi convencê-lo aceitar a humilhante mas generosa atitude de renunciar a esta posição, permanecendo à margem das operações, conservando contudo o título nominal de chefe supremo dos Exércitos católicos.

No dia 4 de setembro, tendo chegado os reforços prometidos, manifestaram-se desacordos e rivalidades entre os chefes dos diversos exércitos. O frade participou do conselho de guerra realizado na cidade de Tulln, como Legado papal, e conseguiu um acordo de todos para que cada Príncipe comandasse seu exército, mas sob a liderança do mais altamente colocado entre eles, o Rei João Sobieski, da Polônia. Duas vezes este teve que ser acalmado pelo monge para continuar as negociações.

Preparação espiritual: condição da vitória militar
hist05Estátua do Padre Marco diante da igreja dos capuchinhos, em Viena. O religioso sempre estava, durante a batalha, nos lugares de maior perigo, exortando com o seu crucifixo na mão, os combatentes católicos a lutar com confiança e coragem

No dia 8 de setembro, festa da Natividade de Nossa Senhora, celebrou o Padre Marco Missa nos campos de Tulln e concitou todos ao arrependimento de suas faltas e a terem grande confiança em Jesus e Maria. O Rei João Sobieski escreveu à sua esposa no dia seguinte: “Passamos o dia de ontem em oração. O Padre Marco d’Avino deu-nos a sua bênção. Ele proferiu um extraordinário sermão de exortação. Perguntou-nos se tínhamos confiança em Deus e, à nossa resposta unânime fez-nos repetir diversas vezes o brado ‘Jesus  Maria, Jesus Maria’. Ele é verdadeiramente um homem de Deus e não é nem inculto nem carola”. O frade foi depois de unidade em unidade transmitindo confiança.

No dia 11 os Exércitos católicos conquistaram a colina de Kahlenberg, pouco defendida. Grave erro tático dos turcos, pois dela se tem boa visão de todo o campo onde a batalha decisiva iria se desenrolar.

Atuação decisiva para a obtenção da vitória

No dia 12 pela manhã, o santo capuchinho celebrou Missa e distribuiu a Santa Comunhão para os generais. Proferiu também um curto mas eloqüente sermão, tendo oferecido sua vida se necessário fosse.

Durante muito tempo, a batalha permaneceu indecisa. O Padre Marco ia com seu Crucifixo na mão aos lugares onde o perigo era maior, exortando todos a lutar com confiança e coragem. Até que uma corajosa intervenção do Duque Carlos de Lorena conseguiu enfraquecer a ala direita do exército turco, o que permitiu à cavalaria polonesa acabar por infligir-lhe uma grave derrota, colocando todo o exército inimigo em fuga desordenada.

Estava assim definitivamente quebrado o mito do poderio turco. Mas os esforços do Padre Marco não cessariam então. Ele insistia em que os Bálcãs fossem completamente libertados do domínio turco.

Decepção do Santo e radicalidade do espírito combativo
hist06Frei Dr. Vincenzo Criscuolo O.F.M., Postulador da causa de beatificação do Pe. Marco d’Aviano junto ao túmulo do defensor da cristandade, na igreja dos capuchinhos, em Viena

Em Viena, a comemoração da vitória consistiu numa grande decepção para o santo capuchinho, pois os vienenses só pensavam em compensar com grandes festas as privações passadas. Os militares planejavam atacar a França para castigar Luiz XIV por suas traições, enquanto o capuchinho dizia: “Sendo a França uma nação católica, devemos nos defender somente na medida do estritamente necessário. Todas as nossas energias devem se voltar contra o poderio turco, este é o nosso verdadeiro inimigo”. O Papa Inocêncio XI propunha uma aliança entra a França, Veneza e o Sacro Império, a fim de  libertar todos os cristãos dos Bálcãs e da Hungria.

Carlos Eduardo Schaffer
Correspondente
Áustria

 


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