Província
São Lourenço
de Brindes
Freis Capuchinhos do Paraná e Santa Catarina

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Jeremias de Valáquia – 08

beatojeremiasNa vida de Frei Jeremias aparece, denso e luminoso, o mistério da vocação religiosa como procura de Deus, sumamente digno de ser amado.
Na família Stoika e na pequena aldeia de Tzazo, na Valachia (Roménia), a vida não poderia decorrer mais serena e tranquila. O pai Kostis e a mãe Margarida Barbat eram agricultores abastados e viviam felizes com os seus seis filhos. Jon era o primogénito, tinha nascido a 29 de Junho de 1556. O próprio Jon, mas tarde Frei Jeremias, contará que sua mãe, com muita frequência, lhe falava de Itália como um lugar «onde havia bons cristãos, os monges eram todos santos e onde vivia o Papa, Vigário de Cristo».
Um dia, no mercado, um velho mendigo, misteriosamente, dissera-lhe: «Tu irás para longe…, para além dos montes, em direcção ao meio dia, para uma terra chamada Itália».
Também o pai Kostis fazia ao filho observações misteriosas: «Vês aquelas aves que voam em direcção ao céu, cortando velozes o firmamento? São parecidas aos mon¬ges que, libertos de todos os empecilhos, voam em direcção ao Senhor».
Jon ouvia e meditava… A graça de Deus iluminava e urgia lá no íntimo do seu coração. Um dia, Jon, em segredo e sem dizer nada a ninguém, deixou a casa e pôs-se a caminho. Tinha 18 anos. Não havia frequentado a escola, mas Deus chamava… A viagem era longa e desen-corajante. Ele mesmo recordará «que tinha sofrido tanto, através dos países por onde passara, que fizera todos os ofícios e artes: ajudou como servente de pedreiro nas construções, cavou a terra, guardou animais, serviu um médico e um farmacêutico. Só dois ofícios não desempenhara: o de pagem e o de esbirro».
Fome, sede, noites de insónia, ciladas de malfeitores!… Atravessados os Cárpatos, chega a Alba Real, na Transilvânia. Por aqui se detêm durante uns bons dois anos. Mas eis que se lhe depara uma boa ocasião para partir. O médico italiano Pedro Lo Jacono, chamado de Bari para curar o Príncipe Estevão Bathory, cumprida a missão com êxito, estava em vias de regressar a Itália e necessitava de alguém para o acompanhar. Apresentou-se Jon, que foi aceite para este serviço. O médico, a cavalo , e Jon, a pé. A viagem durou três meses. Chegaram finalmente a Raguza e depois, por mar, a Bari. Jon deixou o médico e passou ao serviço do farmacêutico, César dei Core.
Por fim, a Itália!… A desilusão não podia ser mais pungente e amarga. Eram aqueles «os bons cristãos», de que lhe falara seu pai e sua mãe? Quantas blasfémias, quantas intrigas, quantas discórdias!
Desiludido, apenas lhe restava regressar de novo à sua terra. Dirige-se ao porto para embarcar, mas um velho misterioso deteve-o: «Jon, para onde vais? Bari não ê toda a Itália. Vai para Nápoles ou para Roma…» O conselho era justo, e sábia a sugestão. Jon voltou para trás. O farmacêutico ofereceu-lhe a possibilidade de ir a Nápoles. Aqui chegou na Quaresma de 1578. As igrejas estavam apinhadas de gente. A impressão foi ótima. Jon não queria acreditar no que os seus olhos viam.
E os «monges santos»? Em Bari tinha conhecido os Capuchinhos. Encontrou-os também em Nápoles. O seu coração transbordou de alegria.
O padre Provincial acolheu-o com bondade e escutou-o atentamente. Aquele jovem, que viera de tão longe, tinha estofo para ser um bom Irmão. Aceitou-o na Ordem.
Jon Stoika vestiu o hábito capuchinho com o nome de Frei Jeremias. Era o mês de Maio de 1578. Após o Noviciado, fez a sua experiência formativa em variadas ocupações e em diversos conventos.
No ano de 1585 foi destinado ao convento de Santo Efrâmio Novo, com o delicado ofício de enfermeiro da Fraternidade. Aqui trabalhará, durante 40 anos, até ao dia da sua morte.
Os pobres e os doentes constituíam o ambiente a que Deus enviara Frei Jeremias. Tinha a compaixão e a generosidade no sangue. Da sua querida mãe aprendera como tratar os infelizes; do seu pai e avô ficaram-lhe gravados exemplos iluminadores; São Francisco de Assis fez depois o resto naquela alma.
Frei Jeremias compreendia, sentia e dava-se de alma e coração: «Era tanta a sua misericórdia e caridade, que teria dado os seus próprios olhos a todos». Segundo ele, até a horta do convento deveria ser aberta aos pobres, e não lhe agradavam as sebes e os muros à volta.
Os Irmãos hortelãos protestavam, mas ele respondia que «a avareza era a causa da carestia de vida e que nunca se tinham visto mais belos e grandes ciprestes como quando a horta estava sem muros».
Punha-se claramente ao lado dos pobres, mas não se afastava dos ricos e dos nobres; eram eles que tinham a possibilidade de tornar menos dura a vida dos indigentes e de fazer justiça. E falava a todos com franqueza evangélica. Quando São Lourenço de Brindis foi proposto para ir ter com Filipe III de Espanha como porta voz dos pobres e dos oprimidos, Frei Jeremias fez valer os seus bons ofícios para convencer o seu confrade a aceitar a difícil missão.
Chegava a toda a parte: Onde fosse preciso o seu auxílio, Frei Jeremias estava presente e disponível. Era o braço direito de todos.
Donde lhe vinha tanta força para se dar todo a todos? Da intimidade com Deus.
De êxtases, nem falar. Não os queria. Dizia que «não desejava êxtases, porque lhe teriam impedido de praticar a caridade. E o amor ao próximo era mais valioso que os êxtases». Realismo camponês e praticidade franciscana.
O seu programa de vida era muito simples e sugeria-o a um jovem confrade: «Caro Irmão, não percas tempo; empenha-te com diligência no teu próprio ofício, pois é assim que se ama e serve a Deus. E quando te sobrar tempo, retira-te e faz oração».
Trabalhar de dia e rezar de noite. Os Irmãos, que o viam ocupado durante todo o dia, admiravam-se de o ver imerso em profunda oração, durante a noite, na capela da enfermaria.
Mas um êxtase, uma visão, se conta da sua vida. Era a Vigília da Assunção de Nossa Senhora, em 1608. A Vir¬gem apareceu-lhe com o Menino nos braços. Frei Jeremias fica encantado e feliz. Um pormenor lhe chama a atenção: a Virgem, Maria não tinha a coroa sobre a cabeça. «Virgem, Senhora minha, Vós sois Rainha e não tra¬zeis coroa» E a Virgem, estreitando o Menino ao peito diz-lhe: «Frei Jeremias, a minha coroa é este Filho».
A visão tornou ainda mais sereno e alegre o semblante de Frei Jeremias. Um rosto assim comunicava e irradiava o bálsamo da consolação: «Que rosto tão alegre e acolhedor! Um rosto próprio de um santo!…»
Austero, mas sempre alegre e festivo. Alimentava-se de favas, para ele eram os seus «faisões». E recomendava-as a todos. A quem se admirava do seu semblante sempre jovial e de bom aspecto, apesar da sua avançada idade, sorrindo, respondia que tudo era efeito dos seus «faisões».
O seu sorriso era apontado como modelo pelas mães a seus filhos; oxalá eles pudessem sorrir sempre com o sorriso luminoso de Frei Jeremias!
Fazia tudo, mesmo os serviços mais humildes, «com grande júbilo e maior alegria». Intuía e satisfazia os desejos dos doentes. Algum deles suspirava por um bom copo de vinho? Frei Jeremias, sem demora, a todos atendia, superando os reparos dos Irmãos esmoleiros.
Não agradava ao vigário do convento a maneira de proceder de Frei Jeremias: porque tomava ele as refeições fora de horas e fora do refeitório? E Frei Jeremias explicava, com muita amabilidade, que tudo era feito com o beneplácito dos Superiores, para melhor servir os doentes da enfermaria. Estas boas maneiras exasperavam o padre vigário, a ponto de este lhe dirigir palavras grosseiras e ofensivas. Mas Frei Jeremias respondia: «Padre vigário, vê-se que está cansado. Não se incomode. Venha comigo, pois tenho-lhe preparada uma aguinha quente, que perfumei com uma medicinal erva odorífera. Um bom tónico levantar-lhe-á o ânimo, trazendo-lhe a calma e a boa disposição».
E a paz voltava aos corações!
Os doentes na enfermaria eram cerca de cem. Todos os quartos estavam ocupados. Frei Jeremias não dispunha de mais um quarto livre. Mesmo assim, gracejava e sorria: «Não podia dispor de mais um quarto porque não podia pagar o aluguer.»
Havia algum doente em situação grave? Dedicava-lhe particular atenção e curava-o com todo o carinho. Frei Plá¬cido, emocionado, testemunhava: «Eu estive doente nos últimos anos de vida de Frei Jeremias; vivi com ele no mesmo quarto durante três anos e experimentei na minha própria pessoa a sua imensa caridade. O carinho que dele recebi nem a minha própria mãe mo daria.» Não quer isto dizer que esta dedicação ao próximo não lhe trouxesse fraqueza e o peso da fragilidade humana. Contudo, cada novo dia, com alma nova e coração novo, retomava a sua tarefa com renovada e ardente caridade.
Quem seria capaz de aguentar Frei Martinho? Com a sua doença era impossível de aturar. Durante quatro longos anos, Frei Jeremias venceu-se a si próprio para estar junto dele. E quando a morte chegou para o difícil Irmão, Frei Jeremias lamentava-se: «Morreu o pobre Frei Martinho; era o meu passatempo e a minha distração».
A caridade de Frei Jeremias não se esgotava com os irmãos doentes da Fraternidade, mas alargava-se também para além dos muros do convento.
Era o final de Fevereiro de 1625. Frei Jeremias já não era um jovem. Fazia um vento assassino e chovia. O Superior pediu-lhe que fosse fazer uma visita ao Grão Camerlengo, João Avalos, em Torre dei Greco. Frei Jeremias partiu. Regressou, porém, com uma companhia pou¬co simpática: contraiu uma terrível pneumonia que, em poucos dias o levou à tumba. «Morrer para ele signifi¬cava rever, na pátria da felicidade, os irmãos que tanto amara e havia curado: agora sim, de todo o coração ele desejava partir para se encontrar com os nossos irmãos coxos e aleijados».
Entregou a sua vida ao Senhor na tarde de 5 de Março de 1625.
Os funerais constituíram uma autêntica consagração. Para evitar confusões e perturbações na multidão, as exé¬quias estiveram para ser realizadas em segredo.
Todos estavam convencidos de que era um santo. Pas¬sado pouco tempo, abriu-se o processo de Beatificação. Depois, por variadas e confusas vicissitudes históricas, a memória do santo pareceu perder-se no esquecimento. Tam¬bém a sua tumba se perdeu, devido à supressão do convento de Santo Efrâmio Novo.
Foram os romenos que fizeram reviver a memória do seu santo compatriota.
O seu sepulcro foi encontrado em 1947.
João Paulo II beatificou-o a 30 de Outubro de 1983. Católicos e ortodoxos encontram-se unidos para recordar a heróica e cativante caridade de Frei Jeremias.
«Pai de misericórdia, que ao beato Jeremias conce¬deste a graça de imitar o Teu Filho em servir os irmãos e em sacrificar-se incondicionalmente por eles, ajuda-nos a percorrer o caminho evangélico da humildade e da cari¬dade para podermos colaborar no Teu desígnio universal de salvação.»


Liturgia Diária

Evangelho: 5ª-feira da 28ª Semana do Tempo Comum

Santo: São Paulo da Cruz

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