Província
São Lourenço
de Brindes
Freis Capuchinhos do Paraná e Santa Catarina

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Félix de Nicosia – 02

31-São-Félix-de-Nicósia-300x211A 200 anos de distância, o Senhor dignou-se dar-nos no Beato Félix de Nicosia (Enna) uma cópia fiel de São Félix de Cantalício. É surpreendente a coincidência nas mais importantes datas da sua vida: ambos entraram nos Capuchinhos aos 28 anos; professam aos 29, e aos 72, sendo Irmãos leigos, concluem a sua meritória «jornada».
De família pobre e numerosa, teve de adiar o ingresso na vida religiosa para procurar, como sapateiro, o seu sustento.
Habituou-se, por isso, desde criança, com uma vida bondosa e de quotidiano sacrifício, à santa paciência. Reza e espera… Espera e reza… Mas, finalmente, Deus dignou-se ouvir o seu clamor ardente.
Como lhe batia o coração a primeira vez que, radiante e ansioso, foi pedir aos Capuchinhos que o recebessem! Queria ficar com eles para melhor salvar a sua alma!
Foi fácil de ver, naquele jovem já maduro, a sua total predisposição para o bem e o estofo de um santo. Grande seria a responsabilidade dos Superiores se, com tal têm¬pera, lhe tivessem roubado o manto da glória.
E de fato, não faltou esse hábil discernimento.
O padre Macário, Superior austero e capaz, religioso estimado pelos confrades e por toda a gente, espera, de propósito e com desapiedada firmeza, fazer dele um homem de Deus, estimulando-o a subir até ao vértice do genuíno heroísmo. Para conseguir tal objetivo, usou um método educativo parcial, estranho e até mesmo injusto, que seria sem dúvida reprovável e condenável, se não reconhecêssemos em tudo isto o dedo de Deus. Habitualmente não o chamava pelo seu nome de Félix, mas por um outro apelido, bem mais humilhante: o mais corrente era chamar-lhe «Frei Descontente». Contudo, dos lábios do Beato não se ouvia mais do que esta resposta: «Seja por amor de Deus sua santa caridade».
felixUma noite, Frei Félix, totalmente absorto em meditação, não se dá conta do sinal para jantar e entra no refeitório depois da bênção da mesa. «De pé» — grita o padre Guardião à comunidade — «Eis o peregrino que vem de Meca». O humilde irmão ajoelha-se, beija o chão e agradece. Vai depois tranquilamente para o seu lugar. Mas o padre Macário continua: «Como ousas, Frei Descontente, depois de ter perturbado os religiosos, sentar-te à mesa? Vai comer para o curral: é lá o teu lugar». Não dando sinais de qualquer perturbação, Frei Félix levanta-se, beija o chão e sai. Passados poucos minutos, o Superior manda ver o que se passa: ele estava de joelhos, num ângulo do curral, comendo a sua ração em paz. «Ide chamá-lo». Ele vem. O mesmo acolhimento anterior: «De pé! Eis o peregrino que vem de Meca». Depois acrescenta: «Desta vez, Frei Descontente, vai para o teu lugar, mas de futuro não perturbes mais a família religiosa».
Era assim todos os dias; era assim quase a todas as horas. Não seria demais?
Certa vez veio ao convento um cavalheiro saudar um amigo. Encontra o servo de Deus: «Oh, Frei Félix, como está?» «Bem, Deus seja louvado». E o amável esmoleiro oferece-lhe a cigarreira, que consistia num simples pedaço de cana, fechada por uma tira de lata. Nem de propósito, pois logo o vozeirão do padre Macário se fez ouvir: «Mas, que modo de proceder é este, Frei Descontente»? Frei Félix ajoelha-se diante do Superior. «Que imposturice andas para aí a contar? Que és um santo? Que fazes milagres ? É para mostrar que tens amor à santa pobreza que metes debaixo do nariz deste nosso benfeitor a tua imunda cigarreira ? Vai para o quarto imediatamente! Andas sempre em lugares de passagem, à espera dos seculares para lhes dar a entender que és um santo. Desa¬parece daqui, hipócrita». — «Seja por amor de Deus». E Frei Félix retira-se, calmo e inalteravelmente, em paz. O cavalheiro fica atônito e, depois de um momento de nervosismo, diz: «Caro padre Guardião, se agísseis comigo assim, ter-vos-ia atirado à cara o primeiro objeto que me viesse às mãos; depois abriria a porta e desapareceria». E o padre Macário: «Meu bom amigo, se conhecesses os tesouros de humildade, de paciência, de mansidão, escondidos no nosso Frei Descontente, compreenderias e desculparias o meu modo de agir. Todos os incômodos e todas as injustiças do próprio inferno não poderão perturbar-lhe a serenidade. O meu dever? O meu dever é de o ajudar no exercício das preciosas virtudes e de o fazer sempre mais amigo de Deus». Acabou o espanto, cresceu a admiração, confortou o bom exemplo.
E passamos aos prodígios. Quando um homem chega a tanta virtude, tem o poder de Deus.
s.felixnicosiaNo regresso de pedir esmola, Frei Félix parava sem¬pre diante de uma imagem de Nossa Senhora das Dores. Um dia, os garotos, vendo-o imerso em profunda oração, aproximam-se devagarinho, sem fazer barulho, e metem-lhe no alforge duas grandes pedras. O Beato não se dá conta e, terminada a oração, entra tranquilamente no convento. Contudo, uma pessoa vira de longe, a brincadeira dos rapazolas e aprestou-se para denunciar os culpados. «Boa senhora — responde-lhe o Irmão encarregado do refeitório — na saca apenas encontrei pão, embora alguns pedaços tivessem forma e volume maiores que o costume». Noutra ocasião, após brincadeira semelhante, enquanto ele rezava diante da sua Virgem Dolorosa, os autores da proeza, como se nada fosse, dizem-lhe: «Frei Félix, faz a caridade de nos dar um pouco de pão»? «Tendes fome, filhos do Senhor? Eis»! Mete a mão no alforge e tira alguns pães. Tinham a forma de pedra; mas eram mesmo pães. E oferece-lhos. Os meninos ficam atrapalhados, olham uns para os outros, refletem e aprendem a lição.
Uma outra vez, andava o irmão com o seu habitual alforge — heroico e admirável alforge — quando uma bondosa senhora se aproxima, a chorar, e lhe pede que vá com ela a um pobre moribundo. «Sim, sim, minha boa cristã». A casa era muito pobre e a escada bastante empinada e escura. O doente encontrava-se num mísero quarto, agonizando. Antes de entrar, o Beato tira o alforge, dependura-o sobre um raio de sol, que penetrava por uma espécie de águas furtadas, e, maravilha das maravilhas, aí fica suspenso. A primeira a dar-se conta foi uma menina: «Mamã, mamã, vem ver: Frei Félix dependurou o alforge num raio de sol, pensando que fosse uma trave»!
Mas vejamos agora os milagres da obediência.
Já vimos que Frei Félix estava totalmente nas mãos do padre Macário: boas, mas tremendas mãos! Tentará, porventura, o Beato escapar-se-lhe alguma vez? Nunca! As mãos do Superior são as mãos de Deus. E jamais se permitirá fazer alguma observação a qualquer ordem.
No quarto do padre Guardião encontram-se um dia uns cavalheiros, falando sobre Frei Félix. E, como ele estava no convento, desejam vê-lo. O padre Macário chama-o: «Frei Félix, toma esta bilha, vai depressa além àquela cisterna e traz-me cheia». O Beato, depressa, dirige-se à escada. «Depressa — grita o Superior — que estes meus amigos não podem demorar: vai pela janela». Frei Félix, sem dizer uma palavra, salta o peitoril da janela, cai sobre o teto do gracioso claustro e ei-lo lá em baixo, sem medo, sem qualquer arranhadura, como se fosse um passarinho, com grande admiração de todos!
Nicosia_01São Francisco amava os animais, porque eram também criaturas de Deus. Chamava-os «irmãos» e «irmãs»: «Irmãos passarinhos, irmãs cotovias.» Trata-se duma herança transmitida aos seus filhos. Também nisto Frei Félix era uma delicada e encantadora alma franciscana. Cito apenas um episódio.
Perto de Nicosia, vivia, longe dos homens mas perto de Deus, um eremita;, alimentava-se do silêncio, da solidão e do diálogo com Deus. O povo tinha-lhe veneração e, confiadamente, recorria às suas orações. Sabemos que os santos se entendem admiravelmente. O eremita, não se sabe bem por quem, veio a saber que Frei Félix, o esmoleiro dos Capuchinhos, caíra doente. «Sim, sim, vou enviar-lhe um presente, um presente que o ajude a restabelecer-lhe as forças». Que faz? Escolhe o mais belo pombo que tinha e, adivinhando que o servo de Deus não teria coragem para o matar, ele mesmo lhe corta a cabeça. Vai depressa levar a pobre ave a Frei Félix, regressando imediatamente ao seu pobre eremitério. Frei Félix fica radiante pela visita; escuta as palavras do Irmão enfermeiro, abre os olhos, levanta-se sobre a mísera enxerga, toma entre as suas tré¬mulas mãos o inanimado pombo, olha-o bem, começa a acariciá-lo e diz-lhe: «Ó formosa avezinha do bom Deus, porque estás morta»? E, enquanto fala, continua a passar-lhe suavemente as mãos nas suas belas asas, as asas de seus voos. E eis que a ave se começa a mover, a agitar, e, viva como dantes, salta-lhe sobre os ombros. A janela está aberta: «Vai, pequenina criatura de Deus; regressa ao teu ninho». Quando o ermita chegou ao seu eremitério, o pombo arrolhava, alegremente, em cima do peque¬no telhado.
Mas, a contar milagres, nunca mais acabaríamos. Toda a vida do nosso Beato foi um milagre. E o mais assombroso de todos foi a sua bem-aventurada morte. O padre Macário não o queria deixar partir. No seu pobre leito, depois de tantos sofrimentos e tantas cruzes, o bom Irmão encontrava-se completamente desfeito; era mais do céu que da terra. Esperava apenas a tão desejada obediência para o voo derradeiro. Mas a obediência não chegava. Mostrava todos os sinais da morte, mas estava ainda na vida. O médico, deveras assombrado, diz para o Guardião: «Padre, Frei Félix está certamente morto, há já três horas pelo menos; contudo ele ainda tem alma. Não compreendo nada»! O padre Macário explicou-lhe o mistério. Se o soubessem, até as pedras se comoveriam. «Então, por¬que não permite que ele deixe este vale de lágrimas?» Finalmente, o padre Macário, deixando cair a habitual más¬cara de impassibilidade, prorrompe em soluços. Aproxima-se do santo Irmão, cuja admirável vida tinha sido um exemplo edificante para todos e, sinceramente comovido, dirige-lhe as últimas palavras e a primeira saudação: «Frei Félix, se é vontade de Deus que deixes imediatamente a terra, em nome da adorável Trindade, em nome do Seráfico Pai São Francisco, eu te abençoo».
Era a libertação. O Beato partiu ao encontro de Deus. Era o dia 31 de Maio de 1789.
Desde então a fama da sua santidade difundiu-se por toda a parte, especialmente na Sicília; a sua simples e paciente vida ficou como um forte convite à sua imitação por todos os Irmãos.
Pela sua intercessão, os prodígios continuaram. Pio IX declarará as suas virtudes heroicas em 1862 e, 26 anos depois, a 12 de Fevereiro de 1888, Leão XIII inclui-lo-á entre os Beatos.


Liturgia Diária

Evangelho: 5ª-feira da 28ª Semana do Tempo Comum

Santo: São Paulo da Cruz

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