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São Lourenço
de Brindes
Freis Capuchinhos do Paraná e Santa Catarina

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Félix de Cantalício – 18

San-Felix-De-Cantalicio-With-The-Infant-ChristFigura atraente e cativante, São Félix de Cantalício é o espelho dos primeiros Capuchinhos. Nele se incarna todo o seu espírito: a simplicidade, a jovialidade, a humil­dade, a pobreza, a contínua vida de oração e o grande amor às almas.

Nasceu em 1515, de pais muito pobres, mas com um nome muito significativo: Santo e Santa. Até aos 12 anos, Félix ficou na casa paterna entregue à guarda do rebanho. Já então se revelava como alma de Deus e um grande penitente, flagelando-se com uma corda. Mas teve de dei­xar os pais, pois era preciso dar de comer a quatro irmãos. Ficava encantado ao ouvir ler histórias de Santos e de Már­tires, desejando ardentemente tornar-se como eles. Bem lá no íntimo sentia a voz de Deus a chamá-lo. Porém, como a família era muito pobre, teve de a ajudar durante al­guns anos. Finalmente, deu-se um acontecimento decisivo na sua vida. Um dia atou ao arado dois fortes vitelos para os domar. De repente os animais enfurecem-se, atiram-no ao chão e investem contra ele. Saiu milagrosamente ileso, sem uma única arranhadura no corpo. Decide então rom­per com o mundo: «Vou fazer-me irmão na Ordem dos Capuchinhos». Um amigo observou-lhe que era uma Ordem demasiado austera. Mas ele respondeu: «As coisas fazem-se ou não se fazem. Para as fazer a meias, será melhor não as fazer».

Tem agora 28 anos. Apresenta-se no convento de Cittaducale (Rieti). O Guardião, olha-o, observa-o bem e diz–Ihe secamente: «Vejo, meu amigo, que vens aqui para arranjares a vida, não é verdade ? Vê-se mesmo que tens pouca vontade de trabalhar, e desejas tratar os frades como tratavas os bois». Félix responde: «É verdade, padre, que não presto para nada, mas venho com o único dese­jo de amar o Senhor». O Guardião leva-o, então, à igreja e, diante de um grande Crucifixo, diz-lhe: «És capaz de viver toda a vida com Ele, pregado na Cruz ?» Admitiram-no à Ordem.

Inicia o Noviciado em Anticoli. Félix era o seu nome no mundo e, coisa deveras insólita entre os Capuchinhos, Félix será também o seu nome de religioso. Foi provado com violentas tentações, mas como era muito sincero com o padre Mestre, todas as crises foram ultrapassadas. Propôs-se imitar em tudo São Francisco, empenhando-se a sério no noviciado e praticando penitências além das habi­tuais. Após o ano da provação, outros três se seguiram, sendo depois mandado para Roma como irmão esmoleiro. Por aqui ficará pelo espaço de 40 anos. Passava pelas ruas como se fosse o retrato vivo da modéstia: totalmente absor­to em Deus. Com um doce e cativante sorriso saudava tanto o povo simples como as grandes personagens e os benfeitores. A um irmão religioso, que lhe perguntava como era possível andar assim tão recolhido, responde: «Todas as criaturas nos servem para nos elevar a Deus, quando as olhamos com olhos puros». Nas longas cami­nhadas de esmoleiro, o seu porte era este: terço na mão, poucas palavras e sempre a falar de Deus, da Virgem e de assuntos espirituais.

Era admirado e benquisto de todos, inclusive de Car­deais e de Papas. Um dia, em Trindade Dei Monti, o Papa Xisto V encontra-o e pede-lhe um pão. O esmoleiro pro­cura no alforge, a fim de escolher o melhor. «Não esco­lhas, Frei Félix, dá-me aquele que te vier à mão». E

saiu um pão duro e negro. «Santo Padre, não foi de pro­pósito; tende paciência e recordai-vos que sois ainda fra­de».

Bondoso e caritativo, tinha palavras cheias de carinho para os doentes. O ofício de esmoleiro trazia-o longe da enfermaria do convento, mas ele tudo remediava. Vinha sempre com as mãos cheias e, quando entrava no con­vento, entrava a alegria. De noite, antes do Ofício de Mati­nas, visitava e confortava os doentes que, na enfermaria, sabia estarem acordados. Aos domingos ia aos hospitais e, qual mãe carinhosa, levava o bálsamo da palavra e da esmola. O seu bondoso coração para com os pobres cativara-lhe a sua amizade. Confortava onde era preciso confortar. Era um prazer ouví-lo, quando fosse necessário exortar ao bem. Dizia a uns: «Não vedes que, vivendo dessa maneira, vos encaminhais para o inferno ?» A outros advertia: «Tolos! Tolos! Pensai nos bem-aventurados do Céu».

Era um verdadeiro anjo de paz. Alguns criados da Princesa Orsini puxam das espadas para se atirarem uns contra os outros. Surge, de surpresa, Frei Félix e diz: «Deo Gratias, meus irmãos». As espadas voltam a embainhar-se, e todos exclamavam: «Deo gratias».

Rubens_Felice_da_CantaliceTal era a sua saudação e o seu agradecimento. Os rapazitos, quando queriam divertir-se, formavam uma roda à volta dele e chamavam-no o «Frei Deo Gratias». Ele não cabia em si de contente e respondia: «Deo Gratias, meus filhos! Deó Gratias, meus anjos!»

O Senhor estava com ele. Tinha entrado na casa de uma senhora a buscar vinho. Mas ela estava desconsolada porque chovia sempre e as videiras estavam com uvas, mas sem folhas. — «Preparai-me a ‘caridade’ porque eu volto já». E saiu para fora pelo espaço de cinco minutos. Eis que volta com o alforge cheio de folhas, mas molha­das e a escorrer. Seguro do que fazia, sem respirar, vai às videiras, despeja o alforge e, dé vez em quando, diz: «São Francisco, São Francisco!» Era pela tarde. A senho­ra fica furiosa: «Ah!, cruel Frei Félix, tudo acabará mal!» Ele responde: «Fazei-me a ‘caridade’ e esperemos!» Vem a manhã. Aquela alma cristã levanta-se e encontra o que não sonhava: bolachas por todos os sítios, até nas pra­teleiras… Entretanto, do seu quarto, repara que as videi­ras se tinham coberto de folhas. Passados quinze dias as uvas estavam maduras.

Tinha sempre uma resposta sagaz. A princesa Colona pedira-lhe uma dúzia de pequenos crucifixos. «De boa von­tade os levarei». Mas, pelo caminho, encontra outras pes­soas que lhos pedem. Distribui-os todos. Ao vê-lo chegar, a princesa pergunta: «E os Crucifixos ?» — «Minha senho­ra, garanto-vos que os trazia, mas outras pessoas pediram-mos. Que devo fazer»? — «Parece-lhe bem, Frei Felix, prometer e não cumprir»? — «Minha senhora, quantas coisas prometemos a Deus e não cumprimos»!

O povo de Roma tinha-o em alta estima e venerava-o com o mesmo afeto com que venerava outro santo daque­le tempo: São Filipe de Neri. Entre os dois surgiram hila­riantes competições de humildade: um, em público, bebia da garrafa do fradinho; o outro levava pela cidade o bar­rete do padre. Cada qual desejava ajoelhar-se diante do outro, mas nenhum deles cedia. Acabavam por se abraçar e, levantando-se, separavam-se em silêncio. Era tão forte e sublime aquela amizade que, para se identificarem com Cristo, se auguravam as penas mais atrozes. Um dizia: «Que eu te possa ver queimado vivo»; o outro: «Que eu te possa ver retalhado em quatro». E assim por diante.

Naquele tempo o carnaval constituía um autêntico esten­dal de orgia. O Santo chorava, expiava, como o Senhor melhor lhe sugeria, mas faltava qualquer gesto profético. Vai, por isso, aconselhar-se com os Oratorianos e com São Filipe de Neri. E combinam um desfile penitencial. Um sacerdote do Oratório irá à frente com a Cruz bem levantada; dois sacerdotes com duas velas acesas de cada lado; atrás Frei Félix, puxando, com uma corda ligada ao pescoço e às ilhargas, o padre Afonso Lobo (o padre Lobo era um famoso pregador Capuchinho que não baju­lava os ouvidos, mas feria os corações; dele disse São Car­los Borromeu, com humor: «Os meus rebanhos têm necessidade deste Lobo»; a fechar o desfile, Capuchinhos com caveiras e ossos de mortos. Tremenda procissão! Des­filam por entre o povo, ébrio de orgias carnavalescas, com os sinais de penitência. A procissão avança, ora em silên­cio ora interpelando, através de cantos compostos para a ocasião, as muitas vaidades da vida… Em lugar aprazado, firme e decidido, o padre Lobo, com eloquência, verbera a imoralidade e a devassidão. O resultado foi um sucesso, pois aconteceu uma desmobilização geral do povo, que reto­mou a vida normal.

A vida consagrada tem a sua máxima expressão nos votos. Digamos algumas palavras sobre o amor de Frei Félix a cada um deles. A sua vida era a expressão vivia do homem disponível e obediente à vontade de Deus, atra­vés dos Superiores. Estava convencido que a obediência era o fulcro de toda a vida religiosa. A sua caridade herói­ca, as suas contínuas penitências, tudo estava regulado pela obediência. Na última doença, o enfermeiro deitou-o sobre um colchão. Mal se deitara, pareceu-lhe ouvir a voz do demónio: «Sim, sim, Frei Félix, com que então a des­cansar em colchões macios»? Levanta-se imediatamente, recriminando-se por ser tratado com demasiada delicade­za. O Irmão, ao vê-lo de pé, ordena-lhe que se deite. Obe­dece. Mas uma voz interior novamente o atormenta: «Está bem, Frei Félix, pela segunda vez deitado num colchão macio»! Pensa: «Será isto a vontade do Senhor»? Frei Félix torna a levantar-se. De novo o enfermeiro: «Mas Frei Félix, por que fazes assim? Foi o padre Guardião quem te ordenou que te deitasses».

Obedece imediatamente. Mas o demónio não desarma e, de novo, diz-lhe: «Ó Frei Félix, e já vão três»! Era preciso fazer-se ouvir, e o Santo responde: «Uma, duas, três, dez e cem vezes sobre o colchão. Eu estou aqui por obediência com o teu desagrado, 6 temerário, ó soberbo, ó desobediente ao teu Criador».

Verdadeiro filho de São Francisco, era um enamora­do da humilde e alegre nobreza. Costumava dizer: «Eu não sou frade, mas vivo entre os frades e sou um peque­no asno». Desempenhava com muita alegria o ofício de esmoleiro e, mesmo que saísse por outros motivos, leva­va sempre sobre os ombros o alforge. O seu hábito era um autêntico mosaico de remendos. No quarto, um míse­ro leito de duas tábuas, uma manta velha e gasta, e uma cruz de madeira.

Alma cândida e transparente, purificada pelas contí­nuas penitências. Não só observava as quaresmas e outras austeridades da Regra mas, querendo seguir os passos de São Francisco, jejuava a pão e água. Devido ao seu ofí­cio de esmoleiro, muitas vezes tomava as refeições depois da Fraternidade: bastavam-lhe os restos que tinham sobra­do. Após percorrer todo o santo dia as ruas de Roma, passava grande parte da noite na igreja. O dia, para a esmola; a noite, para Deus. Dizia também: «Sou moreno, mas formoso! Moreno, porque o sol me mudou a cor; formoso, porque a luz de Deus, na escuridão da noite, me fez a alma resplandecente». Andava descalço, sem san­dálias. Mas dizia: «É porque assim ando mais depressa».

Nunca punha o capuz. Quando se lhe estragavam as san­dálias, fazia-as consertar pelo sapateiro, ou, então, dei­tava nos cortes cebo líquido. Dormia duas, três horas, não deitado, mas de joelhos ou apoiando a cabeça numa mão.

Sabia utilizar bem os cilícios. Uma noite, o padre Lobo tinha ficado recolhido no púlpito, a orar. Entra Frei Félix. Olha para todos os lados, «para ver se não está ninguém». Julgando-se só, começa a flagelar-se com as disciplinas, mas fá-lo com tal violência e persistência que o padre Lobo, não podendo conter-se mais, grita: «Basta, Frei Félix, basta» — «E quem sois vós»? — «Sou o padre Lobo». — «Deus vos perdoe; ide mas é dormir e deixai–me só».

Um dia confidenciou a um confrade: «Também eu sou estudante e sei de cor seis letras: cinco vermelhas que são as cinco Chagas do Senhor; e a sexta é branca, a Virgem Maria». Dedicava, de facto, à Virgem toda a ter­nura, confiança e atrevimento duma criança. Dizia: «Ô doce Mãe do Céu, eu não sou mais que uma pobre crian­cinha que não sabe guiar-se. Ajudai-me e dai-me a vos­sa mão». A 8 de Setembro cantarolava: «Hoje nasceu uma rosinha, Maria, a Virgenzinha». Recomendava aos mais jovens: «Ao sair de casa, coração no céu, olhos na ter­ra, e terço na mão».

maxresdefaultO Natal era a sua festa predilecta. Ele mesmo fazia o presépio. Dizia aos benfeitores: «Que coisa preparastes para a excelsa Senhora, que dará à luz o Menino Deus»?

Certa noite, na novena preparatória para aquela terna e jubilosa festa, teve uma graça extraordinária. Estava na igreja, todo inundado de amor, e suplica à Mãe de Deus: «Deixai-me ter a dita de ver e gozar do Menino Jesus». Não seria demasiado atrevimento? Eis que desce a Rainha do Céu, rodeada de anjos, com o Menino Jesus nos bra­ços… e coloca-o nos braços do seu humilde servo. E o Menino, abre os olhinhos e acaricia-lhe a barba e o ros­to… Delícia divina! Suspiros e doces lágrimas! Com que enlevada ternura lhe beija os pesinhos. As horas iam pas­sando. E Nossa Senhora diz-lhe: «Frei Félix, então?…» E ele, desgostoso, entrega-lhe o Menino. A partir desse momento vivia mais no Céu do que neste mundo.

Certa ocasião passava, com dois garrafões — que tinha esmolado — por uma rua estreita, obstruída com lenha. Chega um senhor a cavalo e, furioso, não se importa do pobre e velho Irmão. Empurra-o e fá-lo cair. Um dos gar­rafões parte-se e o vinho entorna-se. Frei Félix ajoelha-se e pede perdão de lhe ter impedido o caminho devido à sua lentidão. O orgulhoso cavaleiro, caindo em si, irá depois ao convento apresentar desculpas.

Quando, já alquebrado, tinha de caminhar pelas ruas apinhadas de gente, para melhor abrir passagem dizia, sor­ridente: «Deixai passar este asno». E um dia em que caiu, devido ao pesado carrego, disse ao companheiro: «Que estás a fazer? Porque não dás um golinho de vinho a este asno para ele se levantar»?

Assim se compreende que todos lhe quisessem bem, mas especialmente os santos. Até São Carlos Borromeu, quando vinha a Roma: para ele Frei Fálix era mais que um teólogo e consultava-o para dar orientações e normas de vida apostólica ao seu clero. Uma vez, o iluminado Irmão diz-lhe: «Ilustríssimo, procurai que os vossos sacer­dotes recitem bem as Horas Litúrgicas: esse é o segredo».

Entretanto, os 72 anos já lhe pesam. Ansiava arden­temente a paz do Céu. Neste sentido fizera saber aos fra­des de que a sua partida não tardaria muito. Há oito anos que sofria horrivelmente dos intestinos, cujas dores se agra­varam em 1587.

Aos confrades, que o visitavam, recomendava-lhes reci­tassem alguma das canções de que gostava, e dizia: «Estas são as flores e estas as rosas do Paraíso: os sofrimentos devem, portanto, ser gratos a todo o servo de Deus». Ao médico, que lhe sugeria invocasse o nome de Jesus para sentir menos dores, respondia: «Se pensais libertar-me des­tas dores por pronunciar tão augusto Nome, jamais o pro­ferirei». Noutra ocasião, dizia-lhe: «O corpo bem desejaria estar sem dores e descansado, mas queira ou não quei­ra, deve padecer».

Permaneceu fiel a todas as práticas comunitárias até onde pôde, mesmo à oração de Matinas, à meia-noite. Um dia, disse aos seus confrades: «O asno está prostrado e não se levantará mais». Administraram-lhe o Santo Viá-tico. Confortaram-no com todos os auxílios da Santa Mãe Igreja. Também Nossa Senhora o veio confortar. De repen­ te uma luz celestial lhe ilumina o rosto. Frei Félix levan­ta os braços, como que a estendê-los para uma misteriosa pessoa ali presente e, seguidamente, exclama por algum tempo: «Oh! Oh! Oh»! Um irmão pergunta-lhe: «Que vês, Frei Félix»? — «É a Senhora com os anjos…, o quarto é todo luz. Fechai a porta e deixai-me só». Depois fecha, lenta, lentamente, os olhos, como se a sua partida fosse um acto livre da vontade. Entrou na Glória eterna de Deus.

Eis a feliz conclusão de uma inocentíssima vida!

Eram 11 horas da noite, do segundo dia de Pentecos­tes, 18 de Maio de 1587.

Toda a cidade de Roma compareceu aos funerais. O corpo estava flexível e fresco como o de uma criança.

Os milagres multiplicaram-se sobre o seu sepulcro.

Urbano VIII inscreveu-o entre os Beatos a 1 de Outu­bro de 1625.

Foi declarado Santo por Clemente XI a 22 de Maio de 1712.


Liturgia Diária

Evangelho: 5ª-feira da 28ª Semana do Tempo Comum

Santo: São Paulo da Cruz

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