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São Lourenço
de Brindes
Freis Capuchinhos do Paraná e Santa Catarina

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Crispim de Viterbo – 19

11 -  Sao Crispim de ViterboAfável e encantadora figura de Irmão leigo é a de São Crispim de Viterbo. Ele soube levar a toda a parte, den­tro e fora do convento, nos olhos, no rosto e na vida, a verdadeira alegria franciscana: é o santo jovial que tor­na simpáticas e amáveis até as virtudes mais austeras.

Nascido em Viterbo em 1668, nele se revelou, desde a infância, uma alma sincera, uma índole expansiva e afá­vel, uma comunicativa serenidade. A mãe, cuja vida se reparte entre casa e a igreja, depressa se dá conta de que Deus lhe fizera a dádiva de um filho que a irá encher de muitas consolações; daí que se preocupe em orientar, pelo caminho do bem, as primeiras vozes do seu coração e as primeiras manifestações da sua personalidade. Fora–lhe dito que «esse menino não mais a faria chorar». E para que assim acontecesse, foi, sem demora, consagrá-lo a Nossa Senhora e confiá-lo à sua protecção.

O jovem crescia e a todos edificava. Eram estes os seus passatempos: ir à igreja e permanecer nela longo tem­po; frequentar os actos religiosos e passar muitas horas aos pés de Nossa Senhora de Quércia. Estava convencido de que, nas suas dificuldades, a Mãe do Céu jamais o abandonaria. Por isso a Ela recorria com uma ternura e uma ingenuidade que a todos comovia.

Aos 9 anos, com outros três companheiros, sobe a uma pereiraSan_Crispino-Pietro_Fioretti-da_Viterbo_A carregada de belas peras. A um dado momen­to, «crac», o ramo desprende-se. Ele cai, mas nada sofre: invocara Nossa Senhora com a sua jaculatória: «Virgem Maria, ajudai-me».

Um dia, terminada a escola, entra na igreja dos Fran­ciscanos Conventuais para ajudar o sacristão e, por esque­cimento, deixa os livros sobre um banco. Um garoto, que o tinha seguido e espiado, entra na igreja e rouba-lhe os livros. Entretanto, depois da ajuda dada ao sacristão, lembra-se de que tem de recolher os seus livros… «Onde estão»? Procura, torna a procurar, percorre todos os ban­cos e… nada! Então, com fé, ajoelha diante do altar de Santo António e diz-lhe: «Querido Santo António, por aca­so vistes os meus livros? Enquanto eu estava de serviço na sacristia, alguém mos roubou. Ajudai-me a reencontrá–los». A ajuda não tardou, pois o ladrãozito, mal chegara a casa, começou a sentir-se mal e, com medo de morrer, confessa tudo à mãe. E, deste modo, os livros voltaram ao seu legítimo dono.

Pouco tempo mais tarde, encontramo-lo em casa de um tio — o pai já tinha falecido — a aprender a profissão de sapateiro. Era um aprendiz ideal. No fim de cada sema­na recebia a sua gratificação e, sem demora, corria à flo­rista: «Pagai-vos — dizia — quero que me deis as flores mais belas, porque as devo ofertar a uma formosa Senho­ra». Em seguida corria até à igreja e entregava-as ao sacristão para as colocar no altar da Virgem Maria.

Um jovem assim, puro e bom, quanto tempo estaria ainda no mundo?

Em certa ocasião viu passar pelas ruas de Viterbo os noviços Capuchinhos. Pareceram-lhe anjos. Foi com eles. Superou todas as dificuldades da parte da mãe — era filho único — que não o queria deixar partir. Vencerá todos os obstáculos. Apoiado e guiado por sua celeste Mãe e Senhora, apresentou-se ao padre Provincial. Só depois de muita insistência, será admitido na Ordem, com o nome de Frei Crispim. Tinha 25 anos. Embora de compleição débil, sujeitou-se, com alegria, desde o Noviciado, ao tra­ balho árduo de esmoleiro. Quando sai do convento, leva no seu rosto o sorriso dos santos; e, quando regressa car­regado com o alforge, irradia sempre o mesmo sorriso. Certa ocasião, um padre, dos mais anciãos e venerandos, detivera-se no claustro a admirar um ninho de andorinhas. Como eram solícitas e alegras aquelas velozes avezinhas em levar a comida para os seus filhos! O padre observa e fica extasiado com esse quadro. Ocorreu-lhe um pen­samento: não era Frei Crispim como as andorinhas? E, desde então, alcunhou Frei Crispim de «andorinha de Deus».

Terminado o Noviciado vem o maravilhoso dia da pro­fissão. Quantas lágrimas de alegria! Alguns dias depois, sempre a pé, foi enviado para o convento de Tolfa, como ajudante do irmão cozinheiro. Ficar-lhe-ão gravadas na mente as palavras de São Bernardo, por ele meditadas no Noviciado: «Pobreza e pureza». Este era o seu lema. Na cozinha erigiu um gracioso altarzinho, onde colocou uma devota imagem da Virgem Maria. É Ela quem preside aos seus trabalhos e está sempre viva no seu coração. A sua grande felicidade era contemplá-la adornada de flores fres­cas, e queimar-lhe qualquer erva odorífera. E a Senhora recompansá-lo-á deste desvelado amor. Durante uma epi­demia oferece-se para visitar e confortar os pobres doen­tes. Com o beneplácito do padre Guardião recolhe, num canastro, azeitonas, castanhas, fruta fresca e outras coi­sas. Depois dirige-se à sua doce Mãe, ajoelha, reza algu­mas Ave-Marias e diz-lhe: «Virgem Mãe, abençoai estas frutas. Levo-as aos doentes para que tenham algum alí­vio. Fazei que lhe façam bem, e não mal». Em seguida vai ao encontro dos aflitos e, com palavras reconfortan­tes, a todos deixa melhorados ou curados.

O povo dizia: «Precisamos das azeitonas e das frutas de Frei Crispim mais do que das receitas médicas». Mas nada disto o envaidecia.

Em qualquer convento para onde a obediência o man­dasse, o primeiro pensamento era erigir um altarzinho a Nossa Senhora. Em Albano, ainda como cozinheiro, levan­tou um pequenino altar na cozinha, que lhe pareceu mara­vilhoso. Um dia, um famoso teólogo, que lhe dedicava muita veneração, oferece-lhe dois lindos círios. Frei Cris­pim fica radiante e põe-nos imediatamente no altar. Depois vai à horta para colher algumas hortaliças. Neste inter­valo, o seu benfeitor prega-lhe uma brincadeira inocente (os confrades também gostavam de lhe fazer umas par­tidas), tirando os círios do altar e escondendo-os atrás duma porta. Chega Frei Crispim e o seu olhar volta-se para o altarzinho… Onde estão os círios? Põe um ar sério, vai junto da Virgem e, com a ingenuidade de uma criança, desabafa: «Querida e doce Senhora, então que é isto? Ontem as flores; hoje os círios. Vós, Senhora, sois boa demais! Se vos descuidais, mais dia menos dia, até o Menino vos tiram dos braços… Senhora minha, sois boa demais»! O teólogo sente-se comovido com tanta ternura e, não se contendo mais, abraça-o efusivamente.

Em 1700 está como hortelão no convento de Mon-terotondo. A sua primeira preocupação é construir uma capelinha em honra de Nossa Senhora, entrelaçando ramos de árvores e esteiras velhas. Os confrades observam-lhe com ar^ de brincadeira: «Os ventos vão levar tudo pelos ares! É muito frágil». Mas Frei Crispim responde: «Qual vento, qual chuva, qual vendaval? Aposto que primeiro será levada aquela montanha que esta capelinha levan­tada em honra de Nossa Senhora, pois Ela manda no vento, no clima e em todo o céu». Junto desta capelinha espalhava restos de sementes para que as avezinhas vies­sem ali louvar Maria.

Era estimado pelo Papa como se fora o seu benja­mim. Uma vez, de regresso de uma peregrinação à Senho­ra de Galloro, perto de Ariccia, o príncipe Chigi ofereceu a Clemente XI dois canastros de tordos. Chegados ao con­ vento dos Capuchinhos, a liteira detém-se; encontravam–se ali todos os religiosos. Diz-lhes o Papa: «Hoje fizemos uma boa caçada: trazemos… tordos excelentes. Digam a Frei Crispim que os venha buscar». O santo comparece. «Frei Crispim — continua o Santo Padre — ponde toda a vossa arte de cozinhar na preparação destes tordos, pois quero que amanhã comais aquele que mais vos agradar. E reparai bem, ordeno-vos por santa obediência». — «Obrigado, Santo Padre, uma tal obediência não me será muito difícil.»

Rubens_Felice_da_CantaliceAs relações sociais regem-se por esta norma: «contentar os outros e contentar-me também a mim». Mas os santos não são assim. Por isso Frei Crispim era benquisto por toda a gente. A sua simpatia irradiava para muito longe: desde Marino a Ariccia, de Genzano a Castelgandolfo. De toda a parte recorriam a ele, às suas orações e aos seus conselhos. Contudo, Frei Crispim desejava viver na penum­bra do esquecimento: no silêncio, no diálogo profundo com Deus, longe da agitação. Este era o seu sonho. Os Supe­riores não viriam também ao encontro deste seu sonho? Sim, mandaram-no como esmoleiro para o convento mais afastado da Província romana: Orvieto. Era o ano de 1702. Por aqui ficará, quase ininterruptamente, até 1748. Pen­sava viver agora uma vida mais humilde, mas bem depres­sa se vê rodeado de novas e contínuas manifestações de estima e de afecto. Poderá ele despedir de mão vazias os que vêm procurar conforto? Todos lhe chamavam o «São Félix de Orvieto». Quando passa pelo mercado, os ven-dores de peixe e de fruta fazem-lhe festa como se ele fos­se o Santo António. Deixam-no escolher tudo o que ele quer. Frei Crispim sorri, aceita, diz palavras edificantes, faz as suas recomendações, e sobretudo esta: «Quem dese­jar graças de Nossa Senhora, é preciso que seja seu devo­to. E a verdadeira devoção consiste em nunca ofender o seu Divino Filho». Os párocos apelidavam-no de «apóstolo de Nossa Senhora».

Amava os seus votos como preço e caminho do céu, e tinha uma maneira muito particular de dar graças ao Senhor. De olhos fitos no Crucifixo, rezava assim: «O meu doce Salvador. Vós quisestes ser cravado com três cra­vos numa cruz dolorosa e, depois, por Vossa misericór­dia, quisestes suspender com três cravos este vosso servo à doce e suave cruz desta Ordem».

Quando passava pelas ruas, apinhadas de gente, repe­tia a frase de São Félix de Cantalício: «Deixai passar este pobre asno, a fim de poder levar a carga ao convento». Andava de cabeça descoberta, mesmo com mau tempo, «porque um asno com capuz, não faz boa figura».

A cada passo os superiores pediam-lhe conselho. E ele dizia: «Que coisa posso responder, padre Guardião? Sabeis que sou tão sábio como o meu irmão asno e, quan­do falo, faço como o papagaio. Ouvi o parecer dos padres; a minha cabeça é uma abóbora oca». E sempre assim, com alegria e simplicidade, vivia cheio de conten­tamento.

A uma senhora, que se queixava dos seus padeci­mentos, deu-lhe a seguinte resposta: «Imaginai que vos encontrais num mercado cheio de gente, onde, em vez de marcadorias, cada qual apresenta as suas cruzes. Ten­de por certo que, comparando a vossa com a das outras pessoas, vos dareis conta de que é a menos pesada de todas. Então regressareis a casa louvando o Senhor».

Vida longa, vida cheia, vida santa. Foi assim a vida de Frei Crispim. Sempre presente em todos os actos da Fraternidade, de dia e de noite. Todo do Senhor! Tinha chegado aos oitenta. Sente que as forças já não dão para mais. Agudas dores artríticas atacam-lhe as mãos e os pés; uma grande debilidade de estômago vai-o arruinando; já não pode pedir esmola. Entretanto o padre Guardião per­mite que o acompanhem fora do convento para ajudar à Missa.

Os males agravam-se. Enviam-no novamente para Roma. E em Roma, com São Félix e junto de São Félix, preparará a última caminhada para a eternidade. Antes de morrer, quis pedir perdão a todos os Irmãos de tudo o que os pudesse ter ofendido e escandalizado. «E vós, Frei Crispim, perdoais a todos os desgostos que vos causá­mos»? — «Eu não tenho nada que perdoar, porque nin­guém me ofendeu». Todo o tempo repetia: «Meu Deus e meu Tudo. Ao Céu, sim, ao Céu». O olhar, doce e tranquilo, estava sempre voltado para o Crucifixo e para a linda imagem de Nossa Serihora, a sua «doce Mãe».

O processo apostólico atrasou-se, porque estava ainda em vigor o Decreto de Urbano VIII, segundo o qual, só poderia ser iniciado 50 anos após a morte.

A glória da Beatificação foi proclamada por Pio VII a 7 de Setembro de 1806.

Foi canonizado por João Paulo II a 20 de Junho de 1982.


Liturgia Diária

Evangelho: 5ª-feira da 28ª Semana do Tempo Comum

Santo: São Paulo da Cruz

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