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São Lourenço
de Brindes
Freis Capuchinhos do Paraná e Santa Catarina

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Conrado de Parzham – 21

Conrado Parzhan«Numa época em que se verifica um endeusamento da razão, das ideologias e de práticas não cristãs; num tem­po em que se verifica uma orgulhosa exaltação da huma­nidade (soberda da vida, dirá São João) e uma confiança ilimitada no progresso sem Deus…, nesse preciso momen­to a Divina Providência (Deus é surpresa) suscita, como por milagre, São Conrado, uma figura generosa e genui­namente cristã, cuja vida foi vocacionada para nos fazer ver quais as raízes primeiras, genuínas e essenciais da vida cristã: a fidelidade ao compromisso do dever, de todos os deveres, mesmo os mais humildes, o espírito de obe­diência, de disciplina, de abnegação…, o espírito de união com Deus, através do qual não era fácil saber quando é que o bondoso Capuchinho vivia mais intensamente a oração, se no acolhimento ao povo e aos pobres na porta do convento, se quando ajoelhava diante da pequenina por­ta do Sacrário» (Pio XI).
     A fidelidade ao dever de cada dia e uma profunda vida interior são os pontos fulcrais do seu itenerário de santidade.
Nascido e batizado em Parzham com o nome de João, era o nono de dez filhos. Desde criança manifestou par­ticular atracção pela vida espiritual.
     Educado por pais exemplares a amar e a servir a Deus sobre todas as coisas, persistente nos propósitos e firme de carácter, como é timbre dos bávaros, não sabia o que fossem respeitos humanos, nem incertezas e fraquezas de muitos adolescentes.
   Junto da sua cama fizera um pequeno altar, onde pas­sava muito tempo em diálogo com Deus. Instintivamente evitava companhias barulhentas. Quando se dirigia para a escola, a sua grata companhia era a coroa do Rosário, que levava sempre na mão, no pulso ou ao pescoço. Anda­va com a cabeça descoberta, mesmo sob o sol mais abra­sador. A quem lhe perguntava o motivo, respondia: «Por respeito a Deus».
      Aos 14 anos perde sua extremosa mãe; e aos 16, seu venerando pai. A partir daí começa a pensar ainda mais nas coisas de Deus.        A igreja era o seu local preferido: diante do Santíssimo, e depois diante do altar da Virgem, dará largas ao seu coração.
     Jovem apóstolo entre os seus companheiros, com mui­to jeito os levava a rezar com ele e os iniciava na cami­nhada da fé. Quando conduzia o carro, tinha numa das mãos as rédeas, noutra o Rosário. Nos dias de festa assis­tia sempre a duas Missas; e, após as Vésperas, ficava ain­da duas horas em oração na igreja. Nas frequentes e longas peregrinações aos santuários não olhava a fadigas nem a dificuldades. A gente exclamava: «O João não pode viver sempre assim; é bom demais. Leva uma vida de anjo. Mais tarde ou mais cedo vai deixar-nos». Era fácil prevê–lo. E chegou a hora de dizer adeus a todas as esperanças humanas.
     Acalentando o sonho de vir a ser sacerdote, para melhor se dedicar à salvação das almas, irá bater à porta dos Padres Beneditinos. Todavia, após algum tempo de experiência, foi aconselhado a não continuar os estudos. Pensando que a sua vocação iria por outro caminho, não se desorientou. E, enquanto esperava a hora do chama­mento, ia repetindo: «Deus há-de encontrar-me um can­tinho».
     Finalmente, com cerca de 33 anos, a 17 de Setembro de 1851, a Providência abre-lhe as portas dos Capuchi­nhos. Passado um ano, festa de São Francisco de Assis, com o coração cheio de alegria e gratidão, emite a Pro­fissão dos votos como irmão não clérigo.
     Palavras suas: «Como me sinto feliz em estar aqui. E que imensa graça o Senhor me concedeu em chamar–me à Vida Religiosa. Oh! nós, os religiosos, vivendo na Fraternidade, somos mais felizes que os seculares no mun­do».
     Conservará, e até aumentará ao longo da sua vida, o fervor do santo Noviciado. Terá sempre diante dos olhos estas onze normas programáticas na sua aventura com Deus e para Deus:

  1. Quero habituar-me a viver sempre na presença de Deus.
  2. Quando me acontecer qualquer cruz ou humilhação, direi a mim próprio: Conrado, a que vieste?
  3. Quero evitar toda a saída do convento que não seja para o bem do próximo, por obediência, ou qual­quer boa acção.
  4. Esforçar-me-ei por conservar em mim e nos outros o amor fraterno, procurando em tudo não proferir qualquer palavra contra a caridade e suportando com paciência os defeitos, as fraquezas e as faltas dos outros, só as revelando a quem de direito e se a consciência a isso me obrigar.
  5. Quero observar, enquanto me for possível, o silên­cio mais rigoroso; e, quando for necessário falar, serei breve.
  6. À mesa, sempre recolhido, abster-me-ei dos ali­mentos que me são mais agradáveis e mortificar-me-ei com os menos apetitosos. Não tomarei alimentos fora das horas da refeição da Fraterni­dade, a não ser por obediência.
  7. Serei pontual ao primeiro sinal que me chama à oração comunitária, a não ser que esteja impedido por outros deveres.
  8. Com as mulheres, nenhuma convivência que não seja necessária; e, neste ponto, grande cuidado e escrupulosa modéstia no olhar.
  9. Obedecerei com prontidão e perfeita disponibilida­de, deitando mão de todos os meios para me ven­cer a mim próprio.
  1. Porei toda a atenção em ser fiel às pequenas coi­sas e terei horror às imperfeições, mesmo involun­tárias. Ater-me-ei, rigorosamente, em tudo, à San­ta Regra.
  2. Finalmente, quero fazer tudo para ter uma grande devoção à Virgem Maria e imitar a sua fidelidade ao Senhor.

  conradopa   Como podemos ver, não são propósitos extraordiná­rios; não prevêem austeridades especiais nem acções extra­ordinárias. Têm por objectivo o essencial: a perseverança na vocação e a fidelidade ao próprio dever.
     Viera de uma condição de vida de bem-estar e de riqueza; a tudo renunciara para abraçar uma outra vida, que o tinha tornado servidor de todos.
     Vejamos agora as obras.
     Apenas professo de alguns meses, os superiores, que estavam ao corrente da paciência, prudência e caridade de Frei Conrado, nomeiam-no porteiro do convento de Santa Ana, no Altoeting.
     A nomeação, de per si modesta, assumia particular atestado de confiança. Era um cargo de grande mérito e de grande responsabilidade. Se, por um lado, teria de estar atento às suas exigências, por outro, teria de manter o bom nome dos religiosos, seus confrades, e de testemu­nhar as mais diversas obras de misericórdia. Cargo de séria importância pelo ambiente e movimento à sua volta, já que o convento era célebre pelo seu famoso santuário mariano. Todos os anos, da Alemanha e da Áustria vinham milhares de peregrinos, numa média anual de 300 000.
     Contentar a toda a gente, sem que ninguém tivesse a mínima razão de queixa; acolher os ricos e socorrer fra­ternalmente os pobres; aconselhar e corrigir; boa memó­ria e ordem; prontidão, prudência e boas maneiras — tudo isto deveria possuir quem fosse porteiro de Altoeting. «O Senhor assim o quis; de igual modo me esforçarei por querê-lo eu também». Desde o primeiro dia exerceu o ofí­cio com empenho missionário e zelo de apóstolo.
     Irá deparar com grandes contrariedades e será objecto de censuras, porque Deus prova os eleitos, mas os supe­riores estavam contentes com a sua escolha. Frei Conrado era realmente o porteiro ideal. Por isso, nunca mais o mudaram para outro convento. Os guardiães sucediam-se uns aos outros, mas ele ficava, querido por todos, fiel e paciente.
Certo dia dirige-se para o jardim. Tocam a campai­nha. Vai ver. Ouve, acolhe, e depois apresta-se para regres­sar de novo ao jardim. Mas tocam outra vez, e ele novamente volta para trás. Isto por cinco vezes consecu­tivas, mas sempre sem uma palavra, ou um gesto de res­sentimento e admiração.

     Por vezes, isto acontece quando ele está no refeitó­rio: mesmo aqui, se a campainha da porta tocar cinco vezes seguidas, a cada toque ele larga a colher e vai atender.
     Não lhe faltam aborrecimentos. Um dia vai à cozinha preparar uma sopa para um pobre mais necessitado que os outros. O irmão cozinheiro mostra-se agastado com ele. Frei Conrado cala. No entanto, lá consegue a malga de sopa e corre para o mendigo.     Este prova-a, mas não gos­ta dela; atira-a para o chão e enche-o de palavrões. Enfim, quem tem fome deve ser compadecido: o bom irmão reco­lhe os cacos, limpa o chão, humilha-se e volta à cozinha buscar outra sopa.
     A sua força e o seu apoio é o contínuo diálogo com Deus. Ainda a manhã vem longe, e ele, aí pelas três horas da noite, já está em oração na solitária capelinha de Santo Aleixo. Ali passará ainda uma ou duas horas, após o almo­ço, completamente imerso em Deus ou na meditação da Via-Sacra. Noutra ocasião surpreende dois irmãos leigos, muito nervosos, a discutir um com o outro. Cada um deles pensa ter razão. Então Frei Conrado toma um ar sério e diz: «Porque perder tempo em ninharias, se ambos estais equivocados» ?
     Devotava especial amor à Eucaristia e à Paixão. Dizia: «Basta olhar para a cruz, para que tudo se torne fácil. O Crucifixo é o meu livro.»
     Impunha-se a si próprio uma vida austera: mortifi­cações, cama dura, tronco a servir de travesseiro, bem como privações diárias às refeições. Com licença do padre Guardião dará com frequência a sua refeição aos pobres.
     Como homem de Deus, procurara com denodo, vencer–se a si mesmo. Nunca mais esqueceu as severas palavras que um Superior lhe disse no início da sua vida religiosa: «Frei Conrado, deves recordar-te de que estás entre nós, a título de caridade». O seu ofício de porteiro era deve­ras arrasante. No entanto, procurava superar o cansaço, rebater as suas escusas fáceis, pôr de lado as suas satis­fações pessoais. Alegrava-se, por outra parte, quando era incompreendido ou não usufruía de algum descanso mere­cido, para não afrouxar na sua grande aventura espiritual e merecer a aprovação de Deus. Foi assim durante 40 anos.
Era pontual à oração de matinas da meia noite, e, o mais das vezes, já não se ia deitar. Então a igreja de San­ta Ana aparecia inundada de luz.
Tinha uma filial e terna devoção à Virgem, procu­rando adornar de flores frescas a sua imagem, junto da sineta do convento. Quando, especialmente em Maio, as crianças lhas traziam, sentia-se radiante de felicidade. Cha­mava para junto de si aqueles pequeninos inocentes e, com palavras e um olhar de predilecção, falava-lhes da grande e terna bondade da Virgem, rezando com eles, muito deva­gar, a «Avé Maria». Depois, com muita alegria, dava–lhes de comer.
     Era a caridade personificada para com os pobres: a distribuição da sopa constituía a sua grande felicidade e, quanto mais lhe pesavam as panelas, mais alegria ele mos­trava. Costumava dizer: «Aquilo que se dá aos pobres, Deus no-lo restitui cem vezes mais». Porque é que o povo era tão pródigo em levar ao convento pão, ovos, man­teiga e tantos dons de Deus, senão porque o porteiro era um santo?
    conrado Um dia, uma menina ainda muito pequena, chegara com a panela para a sopa, mas, por infelicidade, esta caíu–lhe e fez-se em pedaços. Ficou desolada: era a única pane­la que restava em casa. Que iria comer a sua avozinha e o resto da família? Frei Conrado quase chorava mais do que ela. «Faz assim, minha filha: recolhe esses cacos maiores, vai por aí fora e mostra-os ao primeiro senhor que encontrares. Verás! Verás!… Depois volta». E vol­tou daí a pouco com uma panela nova.
Certamente, se fosse vontade de Deus, teria feito de porteiro até ao fim do mundo. Mas, uma vez, sentiu faltarem-lhe as forças. Era o dia 8 de Abril de 1894: tinha 76 anos. Arrasta-se, como pode, até ao padre Guardião e, com semblante pesaroso, diz-lhe: «Padre, não posso mais». E entrega-lhe as chaves. Ajudam-no a ir para o quarto chamado «da Virgem»: aqui o espera o último cha­mamento de Deus. Com alegria e gratidão infantil, recebe os últimos Sacramentos.
     Era uma tarde de sábado, aquele dia 21 de Abril. O seu estado agrava-se cada vez mais. A dado momento, pres­ta atenção à sineta da porta que tocou uma segunda vez, muito mais forte. Faz um supremo esforço por se levan­tar e chegar à soleira da porta. Apoia-se no umbral e cha­ma o novo porteiro… Rapidamente acorrem os religiosos e levam-no para a cama…
    Um outro alegre toque se faz ouvir: o toque do «Angelus», das «Ave-Marias».
    Frei Conrado parte para o Paraíso ao encontro de Deus.
    Pio XI introduziu a causa de Beatificação em 1924; declara-o Venerável em 1928; dois anos depois, Beato; e passados quatro anos, a 20 de Maio de 1934, Santo.


Liturgia Diária

Evangelho: 5ª-feira da 28ª Semana do Tempo Comum

Santo: São Paulo da Cruz

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