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São Lourenço
de Brindes
Freis Capuchinhos do Paraná e Santa Catarina

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Bernardo de Ofídia

22-Beato_Bernardo_de_OfidaÉ o mais venerado de todos os nossos Beatos. Che­gou aos 90 anos. Quanto mais avançava em idade mais aumentavam nele os atos da virtude, da paciência, da peni­tência. Quanto mais avançava em anos mais ele vivia da confiança em Deus e da serena alegria. Quanto mais avan­çava na vida, mais luminosamente resplandecia o seu burel franciscano revestido de candura, de simplicidade e de humildade.

Simpático e encantador desde criança. Quando se apre­sentava a sua mãe para receber dela qualquer ordem, fazia-o de mãos postas.

«Vede o vosso irmão! Aprendei com ele»!, recomen­dava ela, dirigindo-se aos outros seus filhos pequenos. Eram oito ao todo. Ele era ele; os outros eram filhos na linha do que costumam ser todas as crianças. Ao aperceber–se de que seus pais perdiam a paciência, ou proferiam palavras grosseiras, ou recorriam ao castigo, então inter­vinha: «Não vos preocupeis! Eu farei o que meu irmão recusa fazer. Se ele merece castigo, castigai-me a mim». Era encantadora a sua felicidade ao recitar as suas orações e ao falar das coisas santas e divinas.

Os pecados podem ser de cinco espécies: pecadilhos, pecadinhos, pecados, pecadões e pecadunhos. O nosso sim­pático Beato não só não fazia pecadinhos como tremia todo só em nomear a palavra «pecado».

Aos oito anos ia apascentar rebanhos. Ia só. Confia­vam nele. Guardando as ovelhas, podia orar à vontade. E esfregava as mãos de contente.

Mais de uma vez foi surpreendido enlevado, de joe­lhos, rodeado por todas as suas ovelhas, postadas em cír­culo à sua volta. Se os outros pastores se encontravam com ele, ou desejassem ficar junto dele, deviam também rezar. E se algum deles receasse que os animais se tres-malhassem, assegurava-lhes que nenhum se desmandaria até que não tivessem terminado de recitar o rosário ou repetido algumas lições do santo Catecismo. E era verdade!

A sua festa predileta era o Domingo. Era sempre o primeiro a chegar à pregação e a outras funções religiosas.

Vigiava para que os garotos não fizessem barulho. Na igreja encontrava-se a gosto, mais do que em qualquer outro lugar. Gostaria de lá ficar sempre. Mas, como nenhum dos irmãos se oferecia para sair com o rebanho nos dias de festa, ele aceitava esse encargo. Levava as ovelhas para determinado sítio e ordenava-lhes que não se mexessem, que o esperassem e comessem ali, e que não fizessem mal… E aqueles animais, como se tivessem juí­zo, não se mexiam e esperavam até que ele voltasse das suas devoções. Feliz dele!

Ainda muito jovem, para ser mais útil à família, foi trabalhar como agricultor. Todavia o seu estilo de vida não se modificou: o dever sim, Bem-aventurado Bernardo de Ofidamas em união com Deus e em paz com a sua alma. Nos dias de festa, por vezes, chegava atrasado para o jantar. Ao pai, que lhe pergun­tava o motivo, ele respondia: «Estive na igreja, se me quiserdes dar um pouco de comer, comerei; se não qui­serdes, paciência».

Quanto tempo ficaria ainda no mundo uma criatura como ele?

Aos 22 anos ingressou nos Capuchinhos. Noviço, pri­meiro em Corialdo, depois em Camerino. Professou a 15 de Fevereiro de 1627 e foi enviado como cozinheiro para convento de Fermo, onde lhe confiaram também os doen­tes e os anciãos… Com assídua diligência e benevolência tinha os quartos sempre limpos e ornados de flores per­fumadas; ajudava aqueles que não podiam andar e levava-os a tomar ares ao jardim; era paciente com todos, mesmo com os de temperamento mais difícil.

De Fermo vai para Ascoli, com os mesmos ofícios e sempre muito elogiado. Mas por pouco tempo. Sempre estimado por todos, ei-lo como esmoleiro em Òfida. Batia sim, mas ficava sempre à porta; só entrava quando os ben­feitores lhe pediam para visitar algum doente.

Era assim em Ófida, era assim em Ascoli (para onde a obediência o enviara), e foi de novo assim em Ófida.

O seu pensamento, a sua ideia fixa era: «A Cruz, herança do Paraíso. Quanto mais sofro aqui, mais goza­rei lá». Também sofreu ultrajes, grosserias e imprecações. Mas o admirável Irmão dizia a si mesmo: «Alegra-te, Frei Bernardo: o pão e a caridade são para a Fraternidade; os palavrões são esmolas para ti».

Uma cena de requintado sabor. Um rapazinho tinha saído para o campo com a sua vaca e o vitelinho. Suce­deu o que não devia acontecer: O animal escorregou, indo despenhar-se por um precipício abaixo. Adeus mundo. O vitelinho ficara sem tugir nem mugir; ao contrário, o rapa­zinho chorava, desesperado e inconsolável; cheio de medo, foi esconder-se no denso bosque.

As horas passaram. «Ainda não chegou. Porque não veio? — Deve estar a chegar». Era uma desolação naque­la casa. Mas chega Frei Bernardo. Entra, ouve e diz: «Não temais! Vinde comigo e eu vos ajudarei a encontrá-lo».

Conduz o pobre pai até junto do precipício, mostra–lhe lá em baixo o vitelinho, todo satisfeito, e indica-lhe o local onde estava escondido o seu filho. Mas… e a vaca leiteira? Frei Bernardo não deixa as coisas a meias: vai mostrar-lha, lá no fundo, triste e amachucada… E, pegan­do numa pedra, atira-a contra ela; entretanto, dizia: «Vamos, para cima, preguiçosa! Vem dar de mamar ao vitelinho…» E a pobre vaca lá se foi levantando como pôde, olhou em volta, começou a mugir, subiu o difícil precipício, voltou para junto do vitelinho, e, com satis­fação, deixou-o mamar.

Os anos vão passando por todos, e, como o pedir esmola é muito cansativo, e já eram muitos os seus acha­ques, os Superiores nomeiam-no porteiro. Porteiro! E ser porteiro de um convento é andar sempre para diante e para trás. Como acontecia antes, também agora os garotos se entretém a brincar e a arreliar os frades com o toque da campainha. Frei Bernardo sofre também essas partidas, que lhe faziam perder tempo. Mas sem nunca se alterar nem perder a paz. Para ele, isso era melhor que o pão.

Gostava de estar com os pobres, os doentes e os indi­gentes. Com eles, o Senhor ajudava-o e confortava-o de forma visível. Fora do seu ofício, usava um bastão para se poder apoiar e caminhar. As mãos tremiam-lhe e, se a escudela ou o prato continham sopa, esta espalhava-se. Contudo, no exercício do seu cargo, para cumprir a santa obediência, estava sempre de pé sem bastão, passo firme, todo direito e aprumado.

Para tornar o seu ofício mais meritório, havia dois confrades, o do refeitório e o cozinheiro, que lhe moíam a paciência. Punham-se de acordo para o exercitar na vir­tude. Era sempre um caso sério quando tinha de pedir pão, ou qualquer outra coisa para comer, ou um pouco de vinho para os pobres. Dificilmente encontrava de boa maré o cozinheiro. Queriam saber tudo, tudo lhe regateavam e tudo contavam, como se os bens fossem seus, e não dados pela Providência. Santa paciência! E o pior é que muitas vezes resmungavam e, por trás, chamavam-lhe hipócrita e falso. Chegaram até a esta desfaçatez: «Padre Guardião — dis­seram um dia ao Superior — se quer apanhar em falso Frei Bernardo, se quer apanhá-lo pela certa, inspeccio­ne as suas mangas: É ele quem leva a carne lá para fora». O Padre Superior encontra-se com Frei Bernardo no corredor, preparado para ir ter com os seus doentes: «Que levas dentro dessas mangas? Vejamos! Tira isso cá para fora»!

«Ó Providência eterna!

A prudência humana

é loucura diante de Ti» (Metastásio).

Inspeccionadas as suas duas mangas, delas saíram dois ramos de flores.

bernardo de ofidaSeria verdadeiramente um santo? Dizia-se tanta coisa a seu respeito, que o padre Provincial quis, pessoalmente, submetê-lo à prova. O povo facilmente faz santos e facil­mente proclama santos. Sem ninguém o ver, logo de manhã, vai à horta, e, na parte em que o carinhoso velho cultivava os legumes para os seus pobres, destroça e revol­ve tudo. Um ladrão não teria deixado aquele cultivo assim tão maltratado. Frei Bernardo estava na igreja, mas o Pro­vincial sabia que, terminadas as devoções, iria regar a sua horta.

— «Quero presenciar o que ele vai fazer e dizer, ao ver tal espectáculo». E esconde-se por detrás de uma jane­la, mais afastada, que dava sobre o canteiro. Espera algu­ns momentos. E ei-lo… Ei-lo que vem. Frei Bernardo chega. Olha, olha melhor, olha para tudo aquilo, contem­pla a desolação das suas plantinhas, e exclama: «Bendito seja o Senhor! Alguém quis divertir-se. Comecemos des­de o princípio». Nem mais uma palavra; com semblante sereno, volta a replantar tudo de novo. E diz o cronista que as suas plantas vieram mais viçosas que as primeiras.

Depois disto, poderia o padre Provincial recusar-lhe ou não lhe dar licença para continuar a sua caridade, e para mandar embora, desconsolado, algum pobre? E, en­quanto foi porteiro, não lhe faltou nem roupa nem con­solação.

Quanto mais se envelhece, mais depressa passam os anos. Aos 83, alquebrado e com novos achaques, os Supe­riores dispensam-no de todos os ofícios. Apenas lhe pedem que ajude, se puder, a algum Irmão que precise de ajuda. Vontade dos Superiores, vontade Deus! Mas, como os fra­des não podem viver de rendimentos, continuava a dedicar–se exemplarmente ao trabalho como dantes.

Não se movendo, não sentia as suas moléstias. E até se diria que nem sequer as tinha quando se tratava dos seus doentes. Eram a sua predilecção. Tratava-os como uma mãe carinhosa. Embelezava os seus quartos com flo­res perfumadas e ervas odoríferas de Inverno; dava de comer àqueles pobres confrades que já não o podiam fazer por si mesmos; falava todo o santo dia de coisas espi­rituais. Chegavam a dizer: É agradável ser doente com o Frei Bernardo, junto de nós, a assistir-nos.

Os Superiores tinham-no dispensado de se levantar, à meia-noite, para a oração de Matinas. Ele obedecia, mas passava o tempo a rezar até altas horas da noite. Depois ia repousar. Mas quando a Fraternidade acabava de rezar Matinas, levantava-se, ia para a igreja e ali ficava até de manhã. Para poder andar, usava dois bastões, mas che­gado à igreja, prostrava-se, beijava o chão e orava sem qualquer apoio.

Costumava dizer: «Sou um pobre Irmão leigo, igno­rante e pecador; filho de um camponês ignorante, sem educação e pecador». Ao sono dava duas ou três horas. Jejuava a pão e água todas as vigílias de Nossa Senhora, e também todos os Sábados e Sextas-feiras. A sua ali­mentação eram algumas ervas cruas, raras vezes cozidas; pouco antes da sua morte, por obediência, comia alguma fruta, à noite. E se a fome apertava? Se a fome apertava, dizia a si mesmo: «A erva é suficiente para os jumentos; e eu sou o jumento do convento».

Usava um hábito já muito gasto e cheio de remendos, mas sempre muito limpo. As sandálias que calçava eram as que os outros religiosos deixavam de usar; serviam-lhe mais de tormento do que de ajuda e resguardo.

Flagelava-se todos os dias: as costas tornavam-se uma chaga viva. Cingia os flancos com cilicio de crinas; usava outro, terrível, de ferro, nas vigílias das grandes festas. Teria desejado morrer mártir; tinha uma santa inveja dos santos mártires. «Ah! — dizia — por causa dos meus peca­dos, não sou digno de tal graça»!

Penitente vida de caridade, precursora de uma santa morte. Às palavras: «Parte alma cristã», agita-se suave­mente e, inundado de alegria celeste, diz: «Padre Guar­dião, dai-me a vossa bênção para poder partir para o Paraíso». — «Espera, irmão! Primeiro, em virtude da san­ta obediência, deves abençoar-me a mim e a todos os presentes». E Frei Bernardo levantou, como pôde, o Cru­cifixo, que tinha entre as mãos, e com Ele abençoou a todos. «O santa obediência de partir para o Paraíso, quan­do chegarás»? — Agora podes partir».

Era ao raiar da aurora da oitava da Assunção de Nos­sa Senhora de 1694. E era Domingo. As asas da sua alma abriram-se para a grande viagem.

Esteve três dias insepulto. Retalharam-lhe três hábitos para guardar como relíquia. Os mais ávidos e piedosos quase o deixaram sem cabelos, barba e unhas.

Foi beatificado um século e um ano depois por Pio VI, a 15 de Maio de 1795.


Liturgia Diária

Evangelho: 5ª-feira da 28ª Semana do Tempo Comum

Santo: São Paulo da Cruz

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