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Bernardo de Corleone – 12

«A glória do hábito está justamente… em que um homem que, no mundo, levou os outros a falar de si mesmo, logo que a veste passa a ser uma pessoa diferente»

(Do romance de Manzoni, «Os Noivos», cap. XIX).

Glória do hábito e da Ordem; glória de ontem e de hoje; glória, bênção e privilégio.

A vida do Beato Bernardo comprova essa profunda transformação: era violento e fez-se cordeiro; fizera sofrer e conseguiu ser um portento de voluntárias e incríveis penitências.

Nasceu em Corleone (Palermo) no ano 1605. No Batismo deram-lhe um lindo nome: Filipe.

8Os biógrafos, ao evocar os seus primeiros anos, dizem-nos que era um jovem admirado, alto, forte, obstinado, mas dotado de um carácter decidido, leal e sincero. Igualmente nos asseguram que não era dissoluto, que frequentava os Sacramentos e era compassivo para com os pobres.

Exercia a profissão de sapateiro, mas como era original em tudo, preferia a espada à sovela. Gabava-se diante de toda a gente de ser o melhor esgrimista. Não provocava ninguém, é certo, mas também não cedia a provocadores.

Um nobre cavalheiro de Palermo, famoso esgrimista, sentiu-o bem na própria pele. Na verdade, tendo ouvido falar do jovem espadachim, imediatamente se pôs a caminho, percorrendo uma distância de 50 quilômetros. Chega a Corleone. Procura-o na oficina e, com ares de bazófia; e prosápia, grita com força: «És tu o fulanote de tal»? «Sim, sou eu, que quereis»? — «Apenas isto: se tens medo e és aquilo que dizem, pega na espada». Mestre Filipe (ou compadre Filipe como quiserem), acometido de repentina cólera, desata a correr em busca da arma.  Vamos a isto! É um verdadeiro duelo. E o provocador recebe o castigo: gravemente ferido na mão direita, vê-se
forçado a largar a espada e a afastar-se gritando de dor.

Outro caso ainda mais clamoroso. Também em Palermo, um fogoso esgrimista reivindicava para si a palma de primeiro campeão da Sicília. Tantos duelos quantas vitórias. «Por minha honra — vociferava — vou acabar com o reinado dos mestres Filipes» Quer medir forças com
ele. Escolhe a espada preferida e põe-se a caminho. Chega a Corleone e hospeda-se numa estalagem, fazendo de si mesmo grande publicidade. A notícia espalha-se rapidamente por toda a povoação. Os corleoneses estavam dispostos a pagar, fosse o que fosse, só para ver humilhado esse bazofias pelo seu conterrâneo, tanto mais que se tratava de um importante Comissário do Estado. O nosso sapateiro estava a consertar o calçado na oficina. De repente entra um amigo, acalorado e ofegante. Conta-lhe tudo. Desta vez o campeão era perigoso. Havia que pensar duas
vezes, observou-lhe o amigo. Filipe deixa falar, depois sacode os ombros, levanta-se rapidamente, brande a espada, hesita, depõe-na, volta a sentar-se. íntima e misteriosa voz lhe falava ao coração. «Apesar de tudo, diz, levantando-se novamente preciso de ir ver esse campeão». Pega no bastão e sai. Mal tinha dado alguns passos, vê vir ao seu encontro um grupo ruidoso de rapazes
escoltando o forasteiro. A apresentação é sem cortesias: «És tu então esse valentão, mestre Filipe? Se és aquilo que dizem, se sabes manejar as armas, vai e pega na tua espada». A provocação, além de ofensiva, é também injustificada. Recusar-se a lutar, não; mas que motivo havia para fazê-lo? E responde: «Que mal fiz eu? Nenhum! Que mal me fizestes vós? Nenhum! E então»? Tentava acalmar-se, via-se mesmo; mas a sua cara estava toda esbraseada.

O outro, em tom cada vez mais arrogante, insiste: «Despacha-te; vai buscar a espada». «Não é preciso, contigo o meu bastão é505_001 suficiente. Vamos»! E lançaram-se um contra o outro. O bastão cai em cheio no peito do adversário, mas este estava bem protegido. O sapateiro deu-se conta de que a espada lhe facilitaria a contenda, e diz-lhe: «Espera! Espera»! Corre à oficina e ei-lo de volta de espada em riste. A luta desenrola-se cerrada. Decorridos, entretanto, alguns instantes, o palermitano fica ferido numa coxa. Aplausos intermináveis. Retomam a contenda, agora ainda mais encarniçada. O provocador tem o braço trespassado e dá-se por vencido. Filipe é levado em triunfo. A partir de agora o destemido esgrimista de Corleone não tem rival.

Mas um braço mais forte, perante o qual mestre Filipe se eclipsava, o atemorizou e venceu: o braço de Deus. E o jovem atleta irá servir-se da sua indomável força para dar início à grande luta da sua vida: vencer-se a si mesmo.

Encontrava-se, certo dia, caminhando pela estrada que vai dar ao noviciado dos Capuchinhos de Dalmasissetta. A dado momento repara que um enorme cão negro o segue. Se para, também o animal se detém; se retoma a viagem, o seu estranho acompanhante faz o mesmo. «Que quer este cão? Donde vem»? Entretanto, chega em frente do convento, perto da grande cruz. Volta-se e repara que o mastim tinha desaparecido, após ter ladrado com grande alarido.

O invicto esgrimista saberá também triunfar das tentações do demônio como tinha triunfado dos homens. Inicia o Noviciado. Recebe o nome de Frei Bernardo: era o dia de Santa Luzia de 1632. Tinha então 27 anos. O início da sua nova vida foi marcado por lutas e tentações
infernais. Em certa ocasião pareceu-lhe ver misteriosa personagem diabólica, que o ameaçava com um bastão: «Ah, não será melhor que abandones o Noviciado? Espera um pouco — grita-lhe. Se tu não queres, obrigar-te-ei eu mesmo». E, furioso, arremete contra o jovem. O pobre
noviço defende-se como pode e, para tentar subtrair-se à furia do adversário, grita: «Velhaco, covarde! Vai-te, animal do inferno; não tens vergonha de atacar um pobre
irmão indefeso»? O padre Mestre e os noviços, surpreendidos por tais gritos, dirigem-se apressadamente ao quarto de Frei Bernardo e, com a sua presença fraterna e água
benta livram-no dos vexames do demônio. Este combate e esta magnífica vitória sobre satanás ficar-lhe-ão gravados na memória por toda a vida.

Todavia o inimigo mais perigoso e mais próximo vivia dentro de si mesmo. Como em Paulo de Tarso, também no grande convertido da estrada que ia dar ao convento de Dalmanissetta, a luta se trava entre o homem novo, Frei Bernardo, e o fogoso mestre Filipe. No convento de
Castronovo (Palermo), fazia parte da Fraternidade um irmão porteiro, Frei Boaventura, um ancião austero e ornado de virtudes, mas de temperamento irritadiço e enervante. Fosse por irreflexão, fosse por mania, o certo é que tinha maneiras pouco corteses para com o jovem cozinheiro. Talvez pretendesse ajudar o novo professo na aquisição das santas virtudes. Mas, para ele era um verdadeiro tormento. Quando entrava na cozinha, e fazia-o com frequência, dirigia-lhe sempre as mesmas e nada caritativas palavras: «Mandrião! Porco! Impostor»!

Se a sopa dos pobres não estava pronta à hora exata, o impetuoso porteiro não se continha: «Egoísta! Frade sem coração! Não tens nem sombra de caridade! Não te envergonhas de fazer esperar os pobres de Cristo»? E Frei Bernardo sempre a engolir…, sempre a engolir! … Mas, certo dia, a paciência esgotou-se. Frei Boaventura entra na cozinha, mais furioso que nunca e, na presença de outros irmãos da Fraternidade, começa a desfiar a habitual ladainha. Até parecia que se lhe tinha encomendado o sermão. Eis que, de repente, o pobre cozinheiro endireita-se bem, de fronte levantada, braços cruzados, e, com olhar ameaçador e semblante carrancudo, posta-se diante do irmão porteiro, olha-o de alto a baixo e depois explode: «Frei Boaventura, vós não sois Mestre de Noviços nem Guardião; já há muito tempo que tendes para comigo um arrogante e liberdades que não vos competem. Deixai-me em paz! Vedes este braço? Esmago-vos»! É então
que o velho religioso se recorda de mestre Filipe. Naquele instante ele recobra a agilidade dos 21 anos… que só visto! Mas também nesse momento o heroico cozinheiro sente uma dor agudíssima pela sua culpa: cai de joelhos e desata a chorar. Passados momentos, levanta-se repentinamente e corre para o fogão. Pega num tição e passa-o pelos lábios. Aonde teria chegado, se naquele instante não tivesse aparecido o padre Guardião? Ao vê-lo com os lábios
queimados e ainda de tição na mão, pede-lhe amigavelmente uma explicação. Frei Bernardo conta tudo. Por fim, cheio de amargura e tristeza, acrescenta: «Ah! Padre Guardião, vede como sou indigno de estar na vida religiosa! Precisava tanto de ter paciência e ela foge-me»! …

ÍndiceEntretanto, era necessário vencer-se, devia vencer-se, queria vencer-se. Serão vitórias muito duras, mas também muito gloriosas. Recairá ainda, mas será pela última vez.
Já dissemos que servia a Fraternidade como cozinheiro. Este serviço fraterno ocupava lhe muito tempo. Mas nos momentos livres refugiava-se num esconderijo, ali próximo, para fazer penitência, ou para orar diante de um quadro de Nossa Senhora; ou então corria à igreja para uma
visita ao Sacrário. Às vezes ria-se consigo mesmo por, naquela cozinha, as refeições não saberem a fumo, ou não ficarem insípidas, ou demasiado cozidas.

Certo dia o Guardião sentiu-se no dever de lhe recordar: «É enganar-se a si mesmo, ou pelo menos virtude duvidosa, roubar tanto tempo ao próprio oficio para se ocupar em excessivas devoções». Mas Frei Bernardo, cedendo ao seu amor próprio, justifica-se: «Os religiosos queixam-se? Pois que se queixem! Não têm porventura o necessário»? Mal tinha acabado de dizer estas palavras, deu-se conta de que estava a proceder mal. Logo que saiu
do quarto do superior, possuído de santa cólera contra si próprio, desata a dar murros na sua boca com tanta força, que o sangue começa a saltar por todos os lados. E
exclama: «Língua miserável! Eu te ensinarei a responder às observações do padre Guardião. Não te disse já que não se devia responder desse modo? Responderás ainda outra vez»? … Seguidamente começa a desferir bofetadas em si mesmo sem dó nem piedade. Menos mal que
o ruído chegou aos ouvidos do padre Guardião, o qual, saindo e vendo-o nesse estado, lhe ordena que pare imediatamente. Mas era demasiado tarde: o generoso irmão
tinha o rosto todo ensanguentado. Durante muitos dias aqueles lábios inchados e retalhados de cicatrizes atestam aos confrades até onde ia a sua obediência e o respeito aos
superiores.

Com semelhante têmpera, até onde seria capaz de ir, sobretudo no exercício da mortificação? Sete rigorosas quaresmas ao ano. Nunca provava carne. Dormia duas horas
no Verão e três no Inverno, deitado sobre uma tábua de quarenta centímetros de largura, não se podendo voltar. «É demasiado estreita» — observavam-lhe. Ao que ele respondia: «Mais estreito é o caminho que leva ao Paraíso». Disciplinas e cilícios, com pontas de ferro, ensanguentavam lhe o corpo. E tudo isto para se assemelhar ao seu dileto Crucifixo. O seu mais veemente desejo era ser cravado na Cruz ou, pelo menos, servir a Jesus na Cruz, não para o atormentar com pecados, mas para sentir mais ao vivo em si mesmo os espasmos dolorosos da Sua Paixão.

E como cultivava as outras virtudes? Sem licença do Superior não falava com os seculares que, ao conhecerem a sua santidade, vinham pedir-lhe conselhos ou recordações.

No quarto, nem sequer um lençol. Apenas uma tábua e um pedaço de tronco a servir-lhe de travesseiro. Tinha, porém, uma candeia de terracota, que acendia nas festas de Nossa Senhora.

Costumava dizer: «Não cair nas ocasiões de pecado é como andar sobre espinhos e não se ferir».

A capela do convento era para ele um pequeno paraíso: com os olhos da fé via muitas vezes miríadas de anjos a honrar o Sacrário. Quer de dia quer de noite, horas a fio, permanecia de joelhos ou com o rosto por terra. Nunca se sentava, a não ser por obediência. Inúmeros eram os êxtases. Dizia: «Como o vinho restaura as forças dos velhos, assim a oração renova a força do religioso. Deve-se orar permanentemente, com o coração e com os lábios.
A oração é o flagelo que afugenta as tentações diabólicas mais que as vigílias, os jejuns, as disciplinas e os cilícios». Preparava-se a pão e água para as festas de Nossa Senhora: «Se a honrarmos em vida dizia, ela nos assistirá na hora da morte. Não será condenado quem morrer nos seus braços».

Nos últimos dias de vida, pensava sempre no Paraíso; e consolava-se, repetindo: «A uma noite de tormentos, seguir-se-á um dia eterno de felicidade».

Veio finalmente a libertação. Na cidade de Palermo. Após seis dias de febre; depois de 35 anos de vida religiosa. Assistiram às exéquias os arcebispos de Palermo e Monreal.

Foi beatificado por Clemente XII, a 15 de Maio de1768.

Oração

Senhor, que em São Bernardo de Corleone nos destes um modelo extra- ordinário de penitência evangélica, concedei- nos, por sua intercessão, a graça de relativizar tudo o que é temporal e transitório, para sermos dignos da recompensa eterna. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

 


Liturgia Diária

Evangelho: 5ª-feira da 28ª Semana do Tempo Comum

Santo: São Paulo da Cruz

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