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São Lourenço
de Brindes
Freis Capuchinhos do Paraná e Santa Catarina

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Beato Angelo de Acri – 31

angeloacriEm Acri (Cozenza), na rude e íngreme Calábria, em Outubro de 1669, nasce aquele que mais tarde viria a ser o grande apóstolo da sua terra e uma genuína glória dos Capuchinhos. A personalidade dos Santos espelha também o solo que os viu nascer e crescer.

Montanhês de nascimento e educação, o Beato Ângelo conservará no modo de falar e de agir, a par do seu tem­peramento, um tanto rude, o forte caráter e a indomável energia de seus conterrâneos.

Filho do povo, para bem do povo não conhecerá des­canso nem se poupará a sacrifícios.

Manifesta desde criança um grande amor à oração e à mortificação. Quando diz, sozinho, as orações a Nossa Senhora, quem lhe ensinou a pôr debaixo dos seus tenros joelhos grãos de trigo e de pequeninas pedras?

Um dia, a mãe, no regresso da igreja, vê a sua casa inundada de luz. Que aconteceu? O seu filhinho estava de joelhos, e da imagem da Virgem Maria partiam raios lumi­nosos que o transfiguravam totalmente e lhe envolviam a cabeça como uma auréola. «Certamente o meu filho será chamado por Deus a grandes coisas».

Um seu tio sacerdote desejava encaminhá-lo para o sacerdócio, mas o menino não se sentia atraído. O cha­mamento acontece um ano depois, por ocasião de uma mis­são.

Um austero Capuchinho, descalço e com palavras de fogo, viera pregar à sua terra. Sente o chamamento de Deus: «Também eu quero ser como aquele Irmão e fazer o mesmo que ele faz».

Apresenta-se e expõe-lhe a sua inquietação. Apesar de todos os obstáculos da família, ingressa como noviço na Fraternidade para iniciar o itenerário da sua formação. Está com 18 anos. É alegre, fervoroso, com um desejo enor­me de aprender. Mas, quando menos se pensa, eis que o demónio o vem tentar. E são tão fortes as sugestões do tentador que o pobre jovem volta para a família. Mas, no seu coração, ele deseja ser Capuchinho, sente que deve ser Capuchinho.

Pede de novo para entrar e de novo é aceite. Agora começa da melhor maneira e vai em frente. Mas eis que, mais uma vez, se revela o espírito das trevas: apodera-se dele um desânimo destruidor e um desinteresse por tudo. E, pela segunda vez, diz adeus ao Noviciado. Terríveis e dolorosas provas que «só podem ser entendidas por quem possa por elas». Mas a voz de Deus continua a inquietá–lo e a fazer-se sentir na sua vida. E ele procura viver de uma maneira digna para poder ouvir a Sua voz.

Immagine-Beato_Angelo_d'AcriFinalmente, em 1690, com vinte anos completos, vol­tará, pela terceira vez, a pedir, a bater, a suplicar. Desta vez vencerá. Enquanto se dirige para o convento de Bel-verde, sai ao seu encontro um enorme cão que se põe a ladrar furiosamente: o animal parece querer barrar-lhe o caminho. O santo jovem, amadurecido pela experiência, reconhece o embuste. Enfrenta o furioso animal e grita–lhe: «Besta maldita, vai-te embora! Vai para as profun­dezas do inferno». No mesmo instante o cão desaparece e ele pôde continuar a sua viagem. Poucos dias depois consegue obter tudo o que o seu coração anseia.

Era o dia 12 de Novembro de 1690: com indescri­tível alegria veste o santo hábito para nunca mais o dei­xar, e recebe o nome de Ângelo. Um dia, desanimado e desesperado com novas angústias e tentações, lança-se aos pés do crucifixo, e implora: «Senhor Jesus, tende pie­dade de mim! Não posso mais! Ajudai-me». E obtém a resposta: «Caminha sobre as pegadas de Bernardo de Corleone». Era um claro convite à penitência. Frei Ângelo não rejeita esse convite: flagelações, que lhe provocam san­gue, três vezes por semana; debaixo do hábito, ortigas e ervas pungentes; na boca, folhas de absinto; uma que outra vez, como o Seráfico Pai, se revolverá nas silvas e espi­nhos. Desta maneira vence-se a si mesmo, domina o seu amor próprio, atinge os confins do céu infinito e descansa em Deus.

Oh!, como desejaria viver sempre na solidão do seu paradísiaco quartinho e no recolhimento silencioso da igre­ja! Mas os Superiores confiam-lhe o ministério da pre­gação. «Seja feita a vontade de Deus». Desde o início, pensa dever dar aos seus sermões uma forma, não gongórica e enfática, como era costume na época, mas mais simples e agradável. Mas eis que, num dos momentos mais empolgantes da sua prédica, perde o fio à meada e, com­pletamente desorientado, não consegue acabar.

O servo de Deus, que se sentia seguro da sua memó­ria e da sua preparação, não compreende o que se passa. Humanamente falando era o fracasso total. Que queria Deus dele? No silêncio do convento mortifica-se e chora mas, ao mesmo tempo, pede humildemente ao Senhor lhe mani­feste a Sua vontade. E a resposta vem: «Não temas, dar-te-ei o dom da pregação e abençoarei as tuas canseiras» — «Quem sois vós»? De repente, o pavimento e as pare­des do quarto são sacudidas como que por um terramoto, e ele ouve distintamente estas palavras: «Eu sou o que sou»! Doravante prega de forma simples e popular, de modo que todos entendam.

Desde então torna-se o grande missionário da Calá­bria, e sê-lo-á pelo espaço de quarenta anos. À luz da sua ardente palavra e do testemunho de vida, os bons tornam-se melhores, os pecadores convertem-se: é uma autêntica ressurreição espiritual. Torna-se, assim, o gran­de pregador popular da sua época.

Excepcionalmente aos 42 anos, devido à ressonância carismática da sua pregação, o Cardeal Pignatelli convida-o a pregar a Quaresma em Nápoles. A obediência é sem­pre santa. E aceita o convite. Começa a Quaresma. A maior parte da gente, habituada a outro estilo de pregação, mostra-se desiludida, descontente e não se cansa de o cri­ticar. No segundo dia, o auditório é reduzidíssimo; ao ter­ceiro dia, cinco a seis pessoas. O pároco sente-se no dever de intervir, e faz compreender ao padre Ângelo que será melhor regressar às aldeias da Calábria. Ele parte. À noi­te chega a Torre dei Greco.

Entretanto o Arcebispo, informado do acontecido, não aceita de maneira alguma a sua substituição. Manda-o cha­mar «para que prossiga a quaresma». «Os Superiores que­rem que seja assim, pois que assim seja». E regressa ao púlpito. Desta vez o auditório é numerosíssimo e ouve-o com atenção. Também lá se encontra um jornalista, vin­do, como outras vezes, com o único objetivo de anotar as suas imperfeições de forma e de o tornar objecto de mofa e de riso entre os amigos. Mas a brincadeira sai-lhe cara. Terminada a pregação, o servo de Deus recomenda em voz alta: «Recitemos um Pai Nosso e uma Avé Maria pela alma daquele que, ao sair da igreja, cairá repen­tinamente morto». Há quem sorria e graceje com a inge­nuidade do pregador-profeta, mas, passados alguns instantes, o jornalista é acometido de um mal imprevisto e entrega a sua vida ao Criador. Todos recuperaram novo ânimo e, a partir de então, o auditório tornou-se ainda mais numeroso e assíduo.

Quase sempre, e em toda a parte, a sua pregação era seguida e acompanhada de admiráveis prodígios. Em Medi­cino (Cozenza) estavam preparadas, à porta da igreja, três cruzes, que deviam ser levadas em procissão até ao mon­te de Santa Maria. Era já tarde, e o clero, temendo quea função, um pouco demorada, ao cair da noite, desse lugar a distúrbios, faz saber ao pregador que seria melhor adiá-la. O nosso Beato insiste e pede que se faça a procissão. A cruz, que deveria ser colocada no meio do cortejo, era tão pesada que cinco padres dificilmente a transportavam. Ele adianta-se, sorri, abraça a cruz, levanta-a, coloca-a às costas e avança com decisão. Todos se maravilham e o seguem. Era preciso atravessar uma torrente caudalosa: a multidão aproveita o caminho da ponte e segue por aí; ele, não. Sempre com a enorme cruz às costas, entra na água e atinge a outra margem sem que uma só gota de água lhe molhe o hábito ou o lodo se lhe pegue às san­dálias. O sol começa a esconder-se por detrás da mon­tanha e os revérberos do crespúsculo são cada vez mais ténues. De repente, um grande clarão alumia o cume da montanha. O padre Ângelo sobe para cima da rocha onde as cruzes deviam ser colocadas. Tem ainda a sua sobre os ombros. A seu lado dois homens transportam as duas cruzes menores. Num instante, como que embevecido, o servo de Deus olha para o céu: parece contemplar algum objeto, invisível aos olhos da multidão. Inesperadamente, sobre o cume da montanha irrompe um potente grito: «Glória a Deus! Viva o padre Ângelo! Viva o santo padre Ângelo»! Por entre as nuvens refulgem três cruzes lumi­nosas, que projetam fachos de luz. Estão erguidas, direi­tas, como as três cruzes do Calvário. As aclamações ressoam pela montanha. De todos os corações se elevam ardentes preces; de todos os rostos rolam emocionantes lágrimas. Momentos depois o prodígio desaparece. Então sobre o monte de Santa Maria são, finalmente, levantadas as três cruzes de madeira.

60397132_128766741689Maravilhosos sinais e efeitos de uma vida santa!

Devido aos seus dotes e à sua virtude, nomeiam-no Superior. Foi mais do que superior. Foi um pai. Também o elegem Provincial por um triénio. E pelo seu zelo em promover a concórdia entre os religiosos foi chamado o «Anjo da paz».

Fiel cumpridor da seráfica Regra, pontualíssimo aos atos comunitários, até mesmo adoentado era assíduo, de dia e de noite, à oração da Fraternidade.

De uma intensa vida interior, a cada passo se ouvia gritar: «Como é bom amar a Deus! Como é bom amar a Deus! O Amor não é amado».

Tinha uma ardente devoção à Paixão de Cristo. Em Acri, no ano de 1714, encontrando-se em oração, sente o seu coração ser trespassado por uma espada invisível. O sofrimento é agudíssimo e ele teria prorrompido em gri­tos lancinantes, se não visse ali perto de si, Cristo fla­gelado e preso à coluna, cheio de chagas e de sangue. E uma visão do Paraíso. Jesus diz-lhe: «Que graça que­res que te faça»? — «Senhor, só quero aquilo que Vós quiserdes». O Beato conservará no coração a ferida aber­ta pela misteriosa espada: a dor não será sempre igual, mas, a certas horas, é tão lancinante que se sente morrer.

Tem uma fé tão viva que ela lhe faz ver o Filho de Deus na Eucaristia, como se não existissem véus. A sua alegria é o altar. Na celebração da santa Missa, a sua alma é incapaz de conter o ímpeto e o ardor das comunicações divinas.

Para com a Rainha do Céu tem uma devoção pro­funda e cheia de ternura: com o santo Rosário reza tam­bém todos os dias o Ofício Mariano; quando a Liturgia o permite, celebra a Missa votiva de Nossa Senhora das Dores. Muitas vezes, enlevado em êxtase, ouvia-se excla­mar: «Ó Virgem Santa, a Vós devo tudo e de Vós espero tudo». E dizia aos noviços: «Meus fihos, sede muito devo­tos de Nossa Senhora: um religioso que a ama é um reli­gioso fervoroso e fiel».

Quando regressava da pregação à Fraternidade, era um bom e estimulante exemplo para todos e também um con­forto para o Superior. Um dia foi pedir ao padre Superior licença para uma coisa insignificante. «Padre Ângelo —responde-lhe — não tens já licença para fazeres o que quiseres? Dou-te inteira liberdade». — «Padre Superior, não me fale assim. O senhor é o Superior. Obediência! Obediência»!

Uma outra vez o padre Superior entra no seu quarto para lhe falar e pergunta se está livre. O servo de Deus levanta-se depressa, acolhe-o amavelmente e diz-lhe: «Pergunta-me se estou livre? Devo porventura ter ocu­pações diversas daquelas que vós quereis»?

Era muito humilde. Repetia: «Meu Deus, não sou nada. Tudo é dádiva de Deus. Prego, sim, mas não sou mais que um pobre e vil instrumento, como a burra de Balaão».

Intemerata, gloriosa e difícil a sua castidade: um ver­dadeiro anjo.

Aos setenta anos ainda parecia um jovem. Mas tinha dito: «Chegarei aos setenta, mas daqui não passarei». E começaram então a aparecer os indícios do seu fim pró­ximo. Perdia a vista, mas recuperava-a para celebrar a Mis­sa e recitar a Liturgia das Horas. Teve a consolação de rever Acri e de se encontrar com a sua querida e amada Senhora Dolorosa. A 24 de Outubro de 1739 foi aco­metido de febre. A 28, desceu à igreja para receber o Santo Viático; ouviu a santa Missa e dirigiu aos confra­des um comovente «fervorinho» acerca dos deveres de um verdadeiro frade menor.

O médico dizia: «Não é uma doença de morte». Mas ele respondia: «Deus chama-me». Fazia-lhe companhia tam­bém um cónego, e este sugeria-lhe a oração de São Mar­tinho: «Meu Deus, se sou necessário ao Vosso povo, não recuso o trabalho». A resposta veio rápida: «Só Deus é necessário». Mesmo em estado gravíssimo, continuava a orar, a humilhar-se, a repetir: «Pequei, Senhor! Tende piedade de mim»!

A 30 de Outubro, uma Sexta-feira, partiu ao encontro de Deus.

Foi declarado Beato por Leão XIII a 18 de Dezembro de 1825.


Liturgia Diária

Evangelho: 5ª-feira da 28ª Semana do Tempo Comum

Santo: São Paulo da Cruz

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