Província
São Lourenço
de Brindes
Freis Capuchinhos do Paraná e Santa Catarina

CÚRIA PROVINCIAL:
Rua Alcides Munhoz, 190 - Caixa Postal: 18.833 - CEP 80410-980 - Curitiba, PR
Tel.: (41) 3335 2323 / Fax: (41) 3335 1087

Inácio de Láconi – 11

8 - Santo Inacio de  Laconi  Como é atractiva a vida simples dos nossos Santos Irmãos leigos! Como é simpática a sua figura! Sempre sorridentes, mesmo sob o peso do trabalho; grandes recitadores de orações; ignorantes das coisas do mundo, mas clarividentes das realidades divinas; dão sempre razão aos Superiores, venerando-os como representantes de São Fran­cisco; sempre alegres no desempenho dos humildes ser­viços da Fraternidade; pedintes de pão e doadores de paz; imploram a ajuda material e estão sempre prontos a dar o amparo espiritual. Enfim, por onde passam são um Evan­gelho vivo; e trazem para o convento, para os servos de Deus e os pobrezinhos de Cristo, a esmola vinda da mão da Divina Providência, mesmo em tempo de penúria. Pela sua simplicidade, o Senhor deixa-se cativar por todos e em toda a parte. Abençoados e invejados, louvados e invo­cados, eis os nossos humildes, simples, obedientes Irmãos leigos!

     A Sardenha experimentou, no decorrer do século XVIII, os salutares benefícios da passagam de um deles: Santo Inácio de Láconi.

     Veio à luz na festa de Nossa Senhora de Loreto, de 1701, em Láconi (Nuoro). No batismo recebeu três nomes: Vicente, pelo qual será conhecido até ao ingresso no convento; Inácio, nome que recebeu e conservou como religioso; e Francisco, para contentar sua mãe, pois esta prometera, por divina inspiração, antes de o filho nascer, se o parto corresse bem, consagrá-lo a São Francisco para toda a vida.

     Era o primogénito de quatro irmãos, e teve a grande alegria de uma irmã clarissa. Desde a infância, os seus conterrâneos apelidavam-no de «II Santarello». Irresistivel­mente atraído pela presença de Cristo vivo no Sacrário, logo de manhãzinha corria para a igreja e, enquanto espe­rava que o sacristão a viesse abrir, ele ajoelhava à porta e rezava. «Meu filho, levantas-te muito cedo». — «Não, porque a igreja é a minha casa».

     Deus cumulava-o de graças invulgares, reveladoras da sua alma de eleição. Mais de uma vez, acontecendo-lhe passar junto de crianças, entusiasmadas com o jogo, toca­va numa com o seu fiel bastão e dizia: «Tu és para o Céu». Pouco depois, esse pequenito devia meter-se na cama para ir ao encontro dos anjos.

     Um dia, um seu tio convida-o a acompanhá-lo ao cam­po para levar de comer aos trabalhadores. Infelizmente, no último momento, lembra-se de que lá em casa só havia dois pães. «Que são dois pães para tantas bocas ?» «Tio, não importa! Verá que hão-de chegar!» Chegaram e até sobraram. Estupefato, o tio ficou sem saber o que dizer.

     Como será o futuro do jovenzinho? Costumava deitar um pouco de vinagre na sopa. «Mamã deixa-me fazer, pois deram a beber a Jesus vinagre com fel». Deste modo, a guardar os rebanhos e a trabalhar no campo, viveu a sua adolescência imaculada. Era, por isso, rodeado de esti­ma e admiração por toda a gente. Na família constituía o centro de muitas esperanças. Faltava, porém, cumprir a promessa da mãe. Poderia ser cumprida? Com­pletara 18 anos, quando foi acometido de doença grave. Então, ele mesmo tomou o seguinte propósito: se ficasse curado, abandonaria os seus queridos familiares para se consagrar ao Senhor nos irmãos Capuchinhos. Contudo, uma vez restabelecido, não mostrou pressa em cumprir o prometido.

     Passados dois anos, ele continua ainda a trabalhar no campo. Tinha agora 20 anos. O pai chama-o e diz-lhe: «É preciso ir à quinta de um tal camponês. Serve-te do cavalo». O animal era bom, mas ainda melhor o cavalei­ro. Mas eis que, ao chegar a uma curva perigosa, o ani­mal empina-se e desata numa correria louca em direcção a um precipício. De repente, Vicente recorda-se do voto. Renova-o e promete: «Se me salvo deste precipício, far–me-ei Capuchinho». E aconteceu o milagre: o animal deteve-se da sua corrida desenfreada.

     Deus queria-o para uma vida diferente. Regressa a casa, conta tudo o que se passara, e pede aos pais que o levem a Cágliari, sede provincial dos Capuchinhos. Esta­mos em Outubro de 1721. Após algumas reticências, moti­vadas pela sua magreza, é admitido ao Noviciado com o nome de Frei Inácio.

stolaconi     A incerteza dos Superiores continua durante o Novi­ciado. «Vida de Capuchinho é o mesmo que dizer vida austera. E Frei Inácio era demasiado débil». Contudo ele quer a todo o custo ficar. Deseja mesmo ficar. Redobra o seu fervor, tornando-se um verdadeiro modelo de vida. Um dia exclamou: «Virgem Mãe, qjudai-me, que já não posso mais». Uma voz lá no seu íntimo lhe segreda: «Coragem, Frei Inácio! Recorda quanto foi dolorosa a Paixão de meu Filho. Leva com paciência também a tua». E Frei Inácio vence a grande prova da sua vocação. Em 1722 emite a sua profissão religiosa e foi imediatamente destinado ao convento de Iglesias. Aqui leva uma vida exemplaríssima, no cumprimento dos deveres e no ser­viço de Deus e dos irmãos.

     Um dia, deixa cair, inadvertidamente, ao poço a cha­ve da dispensa. Ajoelha-se, diz três «Ave-Marias» e pede a Nossa Senhora que o ajude. Faz descer o balde, tira-o cheio de água, e… dentro dele estava a chave!

     De Iglesias passa a Cágliari, onde é nomeado respon­sável dos Irmãos esmoleiros. Andava pelos 40 anos. Será nesta missão que ele deixará preciosos testemunhos de vida e onde se revelará como modelo de confiança na Provi­dência de Deus.

     Frei Inácio, esmoleiro! Nenhum orador sagrado pre­gou, como ele, a Boa Nova com tanto fruto espiritual na capital da Sardenha; nenhum médico se lhe pode com­parar na sua ação caritativa e curativa dos doentes; nenhu­ma mãe teve, como ele, tantos filhos para consolar. Vê-lo passar, era como ver a aparição de um anjo do céu. Quan­tas graças e milagres Deus fez por seu intermédio!

     Certa manhã demora-se na igreja a rezar. O Irmão encarregado do refeitório chama-o à parte, dizendo-lhe que não há nada para comer, e a culpa é sua. Frei Inácio ouve e cala. Nisto, dois esbeltos jovenzinhos chegam com dois grandes canastros de pão fresco. O Irmão do refeitório acolhe com alegria aquela dávida, vinda de Deus. Vai des­pejar os canastros e volta para agradecer aos gentis ben­feitores, mas já não os encontrou. Chama…, chama…, e nada! Pergunta se alguém os viu passar na rua…, e nada! Então, compreende. Vai ao encontro de Frei Inácio, ajoelha-se a seus pés e pede-lhe perdão. O Santo responde–lhe amigavelmente: «Irmão, nunca desconfies da Divina Providência. Aqueles que vivem para Deus, jamais serão abandonados».

     Fatos semelhantes aconteciam com frequência na Fraternidade! E com os seculares! A caridade para com eles não era menos cuidadosa. Contudo, não lhe faltaram pro­vações e desgostos: «O bem que não é provado, não é meritório». Apenas um episódio. Numa aldeia vizinha vivia um casal. Bons esposos, casados há já 12 anos, mas não tinham a alegria de um filho. Esta era a sua grande infe­licidade, para a Qual não encontravam consolação. Frei Inácio, na sua missão de esmoleiro, passava de vez em quando pela casa deles. E porque era venerado como san­to, aqueles bons esposos confiaram-lhe a sua tristeza. «Deixemos que o Senhor atue — disse Frei Inácio eu e os meus irmãos rezaremos, e vereis que Deus vos atenderá». Não faltaram, contudo, as más línguas, e até calúnias horríveis. Mas o coração e o olhar de Frei Iná­cio era puro e simples como o olhar dos inocentes. A feli­cidade aconteceu naquele lar. E veio o dia do batismo. O Santo também quis ir à igreja. A dado momento aproximou-se e disse: «Meu menino, diz-me: quem é o teu pai?» E a criança sorrindo, apontou, com a sua mão pequenina para o verdadeiro pai que, com imensa alegria, o tinha levado à igreja para batizar.

Esmoleiro iluminado!

Certa ocasião quis corrigir e chamar à ordem alguns comerciantes que enganavam os seus clientes. Como fazer? Com a capa improvisou dois recipientes: num deles vasou o leite; no outro, o vinho. Por baixo saía apenas água!

Noutra ocasião viu de longe dois soldados vir ao seu encontro, trocando entre si estas palavras: «Eis o santo. As mulheres da Sardenha conhecem-no as mil maravi­lhas». Quando já estavam perto, disse-lhes: «É mais fácil eu fazer-me santo do que vós realizardes o que desejais, naquela casa.» E exortou-os a não entrar, se queriam esca­par a uma grande desgraça.

Esmoleiro sábio e iluminado!

Um dia, com um companheiro, recusa um pouco de pão que um ourives, amigo dos frades, lhe queria dar. Cinco minutos depois, bate à porta de um sacerdote para lhe pedir esmola. O sacerdote fica admirado. E Frei Iná­cio: «Irmão, neste momento, o ourives precisa de pão para a família, enquanto vós não tendes qualquer carên­cia»!

Um comerciante rico, sentiu-se humilhado por Frei Iná­cio não ter ido pedir esmola a sua casa. Queixou-se por isso, ao padre Guardião. «Irei, já que o superior me man­da». A esmola foi abundante, mas Frei Inácio caminha com dificuldade pelas ruas de Cágliari. O alforge pesa-lhe como chumbo. Os transeundes, estupefactos, diziam-lhe: «Frei Inácio, do alforge escorre sangue; levais carne lá dentro?» Finalmente chega ao convento; despeja tudo, e tudo estava ensanguentado. «Padre Guardião, tudo isto é sangue dos pobres, e foi adquirido através do roubo e da usura».

Como todos os servos de Deus, castigava sem pie­dade o seu corpo com contínuas privações e penitências. Chegava a deitar cinza na sopa. Se algum benfeitor lhe oferecia algum presente, ele recusava-o amigavelmente: «Estou acostumado ao pão negro; Deus vos pague».

     Quanta fé e simplicidade na prática da obediência! Um dia o padre Provincial dá com ele a orar num canto escon­dido do convento e diz-lhe:«Frei Inácio, espera aqui, pois tenho um encargo para te dar». — «Benedicite, reveren­do Padre». Eram as sete horas da manhã. À noite, à hora de jantar, o padre Guardião pergunta ao Provincial se tinha mandado Frei Inácio à cidade. Então o Provincial recorda-se e manda-o chamar. Estava ainda de joelhos no mesmo lugar com as mãos nas mangas, em profunda oração. O Superior chama-o: «Que estás aqui a fazer, Frei Inácio?» — «Padre, estou a praticar a obediência». — «Bem, anda para a cozinha». Era uma sexta- feira, dia de jejum. O irmão cozinheiro diz-lhe para jantar. «Mas hoje é dia de jejum — responde Frei Inácio. Basta fazer uma pequena refeição». — «Come, come, irmão! Pratica a obediência, pois assim o ordena o padre Provincial». Frei Inácio põe-se à mesa e, no fim, exclama: «Como é bom comer por obediência! Como é bom jantar num dia de jejum por obediência»!

     Deus cumulou Frei Inácio com o carisma dos mila­gres e o dom da profecia.       Narramos apenas um. Próximo do convento vivia uma linda menina. Ainda Frei Inácio vinha longe, já ela corria ao encontro dele, para lhe fazer uma festa, como se fora o próprio Jesus. Ele também fica­va radiante ao ver a encantadora menina. Durante alguns dias o santo não saiu a pedir esmola. Precisamente, nesses dias, a menina cai doente e morre. No mesmo dia da morte, passando por ali, o santo esmoleiro pede notí­cias da sua pequena amiga. Contam-lhe o sucedido. «Vamos, Frei Inácio, chorai vós também! Aconteceu uma grande desgraça! Vinde vê-la». Sobe ao quarto onde jaz o cadáver já frio. Frei Inácio recolhe-se em profunda oração. Depois, volta-se para os pais desolados: «Não está morta; dorme. Esperai, que eu vou acordá-la». Sacode-a e chama-a. A menina abre os olhos, levanta a mãozinha e diz: «Tenho fome». Frei Inácio dá-lhe um pedaço de pão e entrega-a, viva, aos pais.

santoinaciodelaconi     Já é tempo de finalizar estes breves episódios da sua longa, laboriosa e santa vida. Dois anos antes da sua mor­te ficou cego. Não fazia outra coisa senão rezar. No iní­cio do ano de 1781 despediu-se pela última vez da sua família e benfeitores, a quem distribuiu medalhas e objec­tos de devoção, dizendo a todos que voltaria a vê-los no céu. E, apoiado no bastão, pôs-se a caminho em direção ao convento.

     A 5 de Maio foi levado para a enfermaria. No dia seguinte confessa-se e, depois, pergunta ao confessor: «Que dia é hoje?» Era um domingo. Com os dedos contou até sexta-feira. No dia 9 pediu o Santo Viático. O sacerdote disse-lhe que não havia pressa. «Meu Padre, Deus, na Sua infinita bondade, sempre me ajudou em toda a minha vida: agora mais do que nunca preciso de ajuda para fazer a travessia para a vida eterna».

     A 11 de Maio pediu a Santa Unção. Nessa mesma manhã, chegara um hábil artista para pintar num quadro o retrato do seu amigo, mas ainda ele não tinha trans­posto a soleira da porta, e Frei Inácio diz: «Não deixeis entrar aquele senhor. Que necessidade tem ele de repro­duzir as feições de um asno ?» Quando o pintor entrou no quarto, o santo continuou: «Vejo as cores e os pin­céis: em vez de reproduzir o rosto de um pecador, pintai o rosto da Virgem Mãe.»

     Avisou o Superior de que morreria depois de Vés­peras. Às três horas, enquanto os sinos de Cágliari cho­ravam a agonia do Salvador, ele levantou os olhos ao céu, e perguntou que horas eram. «Ah, sim»! E, juntando as mãos, partiu para a Glória. A notícia correu como um relâmpago. Todos choravam; toda a gente se lamentava: «Morreu o nosso santo! Morreu o nosso pai»! As taber­nas e as casas de comércio facharam. O luto foi geral. Toda a cidade parou.

     Os funerais constituíram um plebiscito de fraternidade e de saudade: abria o cortejo fúnebre a banda municipal; todo o clero secular e regular estava presente com o Capí­tulo e o Vigário Geral; os guardas, a custo, iam abrindo passagem por entre uma multidão compacta

      Morrera o humilde, pobre e bom Irmão, cujo coração era tão grande como o mar.

      Foi beatificado por Pio XII a 16 de Junho de 1940.

     O mesmo Pio XII, em nome de toda a Igreja, pro­clamou a sua solene glorificação a 21 de Outubro de 1951, inscrevendo-o no Catálogo dos Santos.


Liturgia Diária

Evangelho: 5ª-feira da 28ª Semana do Tempo Comum

Santo: São Paulo da Cruz

Publicações VEJA +
Enquete
Quais trechos da Bíblia você consulta mais?
Ver o resultado